É nos momentos mais difíceis e conturbados que emergem os grandes líderes. Quando tudo parece estar a ruir, é então que compreendemos a importância daqueles homens e mulheres a quem compete liderar, tomar decisões e definir o rumo a seguir.

Aliás, quando tudo está bem e tranquilo, quase nem damos por eles e até nos parecem figuras pouco relevantes na sociedade. Mas, no meio de uma pandemia, percebemos como é importante um bom líder e percebemos também quem não é um bom líder. Os momentos verdadeiramente difíceis exigem grandes decisões e essas grandes decisões só estão ao alcance dos grandes homens.

Escrevo esta reflexão em torno ao Domingo do Bom Pastor, mas também no contexto do julgamento em Portugal de um antigo primeiro-ministro, a braços com um processo em que é acusado de crimes, que são pouco compatíveis com a dignidade do lugar que ocupou. Não pretendo explicar o que é um bom líder e como “se faz” um bom líder; quero apenas avivar esta consciência de como um bom líder deixa uma marca duradoura naqueles que o seguem, ao criar as condições para um futuro mais justo e mais sorridente para todos. Sem um líder, torna-se praticamente impossível estabelecer e prosseguir um projecto comum.

Com a sua clareza habitual, o papa Francisco – sem dúvida, um dos grandes líderes do nosso tempo – escreve: «existem líderes populares, capazes de interpretar o sentir dum povo, a sua dinâmica cultural e as grandes tendências duma sociedade. O serviço que prestam, congregando e guiando, pode ser a base para um projecto duradouro de transformação e crescimento, que implica também a capacidade de ceder o lugar a outros na busca do bem comum» (FT 159).

Mas há um outro texto do Papa, que me parece ainda mais claro e pertinente. Dirige-se aos dirigentes religiosos, mas aquilo que diz é válido para todos aqueles que são chamados a desempenhar funções de liderança. É, portanto, um texto que merece ser conhecido de todos: «somos chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz, e não como intermediários, mas como mediadores autênticos. Os intermediários procuram contentar todas as partes, com a finalidade de obter um lucro para si mesmos. O mediador, ao contrário, é aquele que nada reserva para si próprio, mas que se dedica generosamente, até se consumir, consciente de que o único lucro é a paz. Cada um de nós é chamado a ser um artífice da paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de o conservar, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros» (FT 284).

Com frequência, rezamos pelos dirigentes políticos e religiosos, para que saibam guiar com sabedoria e prudência aqueles que lhes estão confiados. Da mesma forma, também devemos agradecer a Deus por continuar a conceder à humanidade bons líderes. Eles são mais necessários do que nunca…

José Domingos Ferreira, scj