Andamos há várias semanas a assistir a uma guerra fratricida, sem sentido e com vários sinais de desumana crueldade. Os meios de comunicação social inundam-nos a casa com imagens horríveis de destruição, angústia e desespero. Infelizmente, parece que a nossa solidariedade para com o povo ucraniano tem vindo a arrefecer, depois de um vigoroso entusiasmo inicial. Mais grave, porém, é que, ao fim deste tempo, também nós já nos tenhamos acostumado a esta situação e começado a encará-la como algo natural e suficientemente distante para não nos causar grande mossa…

Quero lembrar que quem vive a vida como vocação, torna-se numa pessoa de paz. Quem vive para realizar a missão que Deus lhe confia, não perde a paz, mesmo no meio das confusões e das perturbações da história. Quem vive reconciliado com Deus e com os irmãos, pode tornar-se artífice da paz, porque caminha ao sabor daquelas palavras de Jesus: «bem-aventurados os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9).

A paz, portanto, é um dom de Deus, mas é também uma tarefa humana. Cada um de nós pode empenhar-se activamente na construção duma paz sólida e firme, partilhada por todos. Como diz o papa Francisco, «ninguém pode amadurecer numa sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte duma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflecte-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida» (LS 225).

O caminho da paz é estreito e com um grau elevado de dificuldade, mas é um caminho que vale a pena. Não há paz onde só existe vontade de poder e de domínio sobre os outros. Não há paz onde vigora de forma indiscriminada a lei do mais forte. Não há paz onde a violência aparece como a primeira solução para a resolução dos problemas. Mas também não há paz quando o bem comum é torpedeado pelos egoísmos individuais, de quem só quer saber de si e de quem é indiferente ao destino dos outros. Com efeito, «o bem comum requer a paz social, isto é, a estabilidade e a segurança de uma certa ordem, que não se realiza sem uma atenção particular à justiça distributiva, cuja violação gera sempre violência» (LS 157).

Se não queremos ver os mais novos – que são sempre filhos e netos de pais e avós – a pegar em armas e a lutarem na guerra, com a possibilidade real de não saírem de lá vivos, é bom que os eduquemos para serem construtores e defensores da paz. Como é importante aprender a amar a paz, a apreciá-la com alegria e a desejá-la com intensidade! Não há nenhum dinheiro no mundo que possa pagar um coração em paz consigo, com Deus, com os outros e com a natureza.

José Domingos Ferreira, scj