Os acontecimentos dos últimos dias, no nosso país, que nos lançaram numa crise política, são uma boa oportunidade para escutarmos, mais uma vez, a palavra do Papa Francisco: «o político é um construtor com grandes objectivos, com olhar amplo, realista e pragmático, inclusive para além do seu próprio país. As maiores preocupações dum político não deveriam ser as causadas por uma descida nas sondagens, mas por não encontrar uma solução eficaz para o fenómeno da exclusão social e económica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada» (FT 188).

A queda do Governo não se deveu directamente à sua incapacidade em lidar com nenhum dos problemas acima mencionados, mas à não aprovação do orçamento para o próximo ano. Não foi uma questão de princípios nem de valores que levou à dissolução do parlamento; foi sobretudo uma questão económica, com claros contornos políticos, que o cidadão comum terá dificuldade em entender. Isto deixa bem claro que, apesar dos muitos problemas com que se debate a nossa sociedade, não encontramos nos nossos líderes esta vontade firme de pôr termo a estas situações dolorosas, que nos deveriam indignar e envergonhar a todos. Pelo contrário, este cenário desolador é frequentemente varrido para debaixo do tapete ou escondido por detrás da cortina ou, dito de outro modo, não faz as manchetes dos jornais nem se torna viral nas redes sociais. Um dia, quando o escândalo se tornar inegável e atingir dimensões assombrosas, seremos todos muito lestos em negar qualquer responsabilidade da nossa parte. E mais lestos ainda a apontar um responsável que carregue com a totalidade das culpas.

Com frequência, o olhar do cidadão comum parece só se preocupar com os impostos que são cobrados e com o número dos desempregados inscritos nos centros de emprego. Não são certamente questões insignificantes, mas também não representam a totalidade dos problemas que afectam tantos portugueses. Perante toda esta situação, os nossos decisores políticos parecem ficar-se apenas pela aprovação de umas quantas leis, com muito pouco impacto na vida das pessoas.

No fundo, continuamos a ser pouco exigentes com os nossos governantes. Continuamos a tolerar demasiadas encenações e patranhas. A recente queda do Governo é apenas mais um acontecimento, que suportaremos com imensa paciência, suspirando – quem sabe – pelo D. Sebastião que tarda em vir. Isto de ser “um povo de brandos costumes”, mesmo que possa conter alguma verdade, é um pau de dois bicos, que tanto dá para um lado como para o outro. Mas a verdadeira questão talvez seja mesmo de falta de maturidade…

José Domingos Ferreira, scj