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A Revolução Francesa proclamou – alto e bom som – a liberdade como um dos seus valores fundamentais. Desde então, ela tem-se assumido como uma das aspirações humanas mais firmes e intensas, defendida, por vezes, à custa de sangue, suor e lágrimas. Quantas transformações na sociedade se deram sob o lema da liberdade! No nosso país, este sonho ganhou corpo na Revolução dos Cravos, tornando-se este acontecimento o seu símbolo maior, recordado com pompa e solenidade em cada ano.

Não pretendo entrar em grandes discussões sobre o que é a liberdade, mas parece-me que as palavras do Papa Francisco tocam numa ferida aberta e que tarda em cicatrizar: «o paradigma tecnocrático faz crer a todos que são livres pois conservam uma suposta liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria que detém o poder económico e financeiro» (LS 203). Talvez não sejamos ainda tão livres como sonhamos, mas parece que o pior é que não nos damos conta do que nos está a acontecer. Temos ainda um longo caminho pela frente rumo a uma liberdade real e efectiva…

Por outro lado, é preciso reconhecer que «o ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal» (LS 105). Efectivamente, a liberdade não é um dado adquirido à partida, mas algo a construir e a amadurecer em cada dia, em cada decisão, em cada oportunidade. A liberdade implica sempre uma luta: não se trata tanto de uma luta contra inimigos exteriores, mas de um combate contra adversários que levamos dentro de nós. Na arena do nosso coração, temos de estar preparados para escolher ser livres em cada dia e agir em conformidade com a decisão tomada…

Tendo em conta tudo isto, uma coisa é certa: ninguém é livre nem poderá amadurecer a sua liberdade sem uma relação harmoniosa e equilibrada com a natureza. Por isso, atentar contra a criação é também minar as condições da nossa própria liberdade. Não sejamos ingénuos, pensando que a nossa liberdade se constrói independentemente das condições de vida no planeta. Mais do que nunca, precisamos de recuperar aquela convicção da Bíblia, que «ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus. Esta afirmação mostra-nos a imensa dignidade de cada pessoa humana, que não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas» (LS 65).

Acima de tudo, temos de nos convencer que a criação é o jardim da aprendizagem da liberdade. Fomos colocados neste jardim para aprender a ser livres e ele tem as condições necessárias e adequadas para tal. Mas, quanto mais o deteriorarmos, mais doente e depauperada será a nossa liberdade.

José Domingos Ferreira, scj