24 de junho de 2022

Aos membros da Congregação

A todos os membros da Família Dehoniana

A visita às Entidades da Congregação abrange principalmente o encontro com os religiosos e as suas comunidades. Muitas vezes estende-se a colaboradores da missão e até mesmo a membros da Família Dehoniana. Isto permite-nos ter uma ideia, mesmo que apenas básica, dos lugares onde estamos e da missão que se realiza. Os diálogos pessoais que temos durante esses dias geralmente começam com perguntas: como estás? como vai a vida? e a saúde? E assim, pouco a pouco, surgem vários assuntos, inclusive os hobbies pessoais para o tempo livre: leitura, pesca, música e, acima de tudo, desporto. A verdade é que temos excelentes ciclistas, corredores, jogadores de hóquei, de badminton, de golfe, futebolistas, nadadores e andadores, muitos andadores. Tudo para se manter em boa forma.

Mas, além do acima mencionado, o melhor da visita é saber o que motiva e sustenta a vida e o trabalho de cada um. A este respeito, uma pergunta que nos ajuda é: “Daquilo que Jesus fez e disse, o que inspira particularmente aquilo que vives e que fazes neste momento e neste lugar?”. As respostas que recebo tecem uma releitura muito animada do Evangelho a partir de situações pessoais, comunitárias e sociais concretas e muito diversas. Um verdadeiro tesouro. Num desses encontros, um companheiro disse-me que, desde o início da pandemia até agora, se havia concentrado nas cenas do Evangelho em que Jesus ora. Uma após outra, contemplava nelas o Coração do Filho aberto ao Pai, partilhando com Ele rostos, fadigas, louvores, agitações, alegrias, ansiedades, esperanças… Em suma, toda a vida assumida no quotidiano com paixão, destemidamente exposta diante da bondade e da ternura de Deus, em quem Jesus confia em todas as circunstâncias:

Reconhecemos que da oração assídua
dependem a fidelidade de cada um e de nossas comunidades,
bem como a fecundidade do nosso apostolado (CST 76).

Assim, é na oração, como um exercício saudável que enfraquece a arrogância e fortalece o abandono confiante, que o discípulo se prepara, da maneira mais desarmada possível, para que aconteça na sua vida, na sua comunidade e em tudo o que faz, aquilo que o Pai deseja. Não outra coisa. Por isso, quando paramos para contemplar o Coração do Salvador, somos convidados a celebrar sua vida forjada na fraqueza e na renúncia a qualquer outro poder que não seja o de ser filho, irmão e servo de todos. É Nele que reconhecemos o modelo genuíno de disponibilidade apaixonada, incondicional, a serviço do Reino:

Vivemos a união com Cristo
também na nossa disponibilidade e no nosso amor para com todos,
em especial para com os humildes e os que sofrem (CST 18).

De tal forma, no Coração do Redentor, obtemos o melhor “centro de treino” permanente. É ali que aprendemos a manter-nos em forma como discípulos e irmãos, atentos e próximos às pessoas mais frágeis e necessitadas. Como Ele nos ensina, um coração saudável vive a vida diária como um contínuo louvor a Deus. Trata-se, portanto, de abrandar preguiças e tudo que dificulte na própria vida o acolhimento alegre do carisma que nos foi dado para partilhá-lo na Igreja e na sociedade. Isto supõe um exercício contínuo, não raro cansativo, de revisão de atitudes e ritmos, tanto pessoais quanto comunitários, para não ficar sepultados no que poderia ser um fatídico “sempre foi assim”:

Na oração, o religioso procurará reavivar frequentemente
a sua consciência de ser consagrado a Deus;
e, nas situações instáveis da vida,
questionar-se-á como corresponder
fielmente a essa consagração (CST 104).

Ao celebrarmos a Solenidade do Coração que tanto nos ama, continuemos a sair ao encontro da Vida que Ele nos presenteia. Nele e a partir d’Ele encontraremos o melhor fitness que podemos imaginar. Para nos ajudar no nosso treino, Ele mesmo não cessa de se expor a nós de muitas maneiras: a Eucaristia, a sua Palavra, os homens e as mulheres de cada raça e lugar com quem partilhamos esta história, especialmente com aqueles que mais sofrem. Com Ele, tudo é um convite para continuarmos a sair de nós próprios a fim de estarmos melhor sintonizados com o seu Evangelho e com a realidade do nosso tempo, onde nos cabe ser testemunhas do seu amor incondicional e da sua misericórdia renovadora. Neste dinamismo de solidariedade, abraçado com alegria esperançosa, o nosso coração poderá permanecer em boa forma, pronto para compartilhar novos desafios e respostas. Com sincera humildade, continuemos a oferecer com Jesus a nossa vida ao Pai:

 

O meu coração está pronto (cf. Sal 108,2).

para escutar-vos e chamar-vos de Pai, na solidão e com todos.

O meu coração está pronto
para recusar propostas que me separam de Vós,
como as do tentador no deserto
ou a do amigo Pedro para não subir à Jerusalém.

 O meu coração está pronto
para partilhar a vida e os bens, com os discípulos e com todos.

 O meu coração está pronto
para anunciar em todo templo e lugar que sois vida e misericórdia.

O meu coração está pronto
para repensar critérios próprios,
aprendendo com a estrangeira que pedia liberdade para ser vossa filha.

O meu coração está pronto
para reconhecer-vos nos pequenos e simples.

O meu coração está pronto
para abraçar a vossa vontade
e não o medo que aprisiona na noite do Getsémani.

O meu coração está pronto
para construir a comunidade nova que nasce aos pés da cruz,
com Maria e o discípulo amado.

Fraternalmente, in Corde Iesu

P. Carlos Luis Suárez Codorniú, scj
Superior geral e seu Conselho

Rybnitsa, 12 de junho de 2022