O prólogo ao evangelho de João é um hino imenso, um cântico sublime, que nos transporta para o alto, para muito alto. O Menino que jaz envolto em faixas nas palhas do presépio, é o Verbo, é a “Palavra” viva de Deus, tornada pessoa, a pessoa humano-divina de Jesus. Gerado pelo Espírito Santo, em Maria de Nazaré, nasceu em Belém. Aquele em Quem estava a vida fez-Se humilde e pobre para gerar vida nova para os homens e para o mundo. Aquele por Quem tudo foi criado fez-Se homem para completar a criação, eliminar tudo o que se opõe à vida e criar condições para o nascimento do homem novo, num mundo renovado.
“No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens”. O evangelista usa palavras absolutas que nos ligam à totalidade e à eternidade, a Deus e ao cosmos, numa visão extraordinária que abrange o tempo e as coisas, o espaço e a Divindade: “No princípio”, “tudo”, “nada”, “Deus”.
“Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito.” Sem o Verbo, sem a Palavra criadora, nada do que existe teria sido criado: nem a terra, nem o mar, nem o céu, nem os homens, nem as plantas, nem os animais. Toda a vida floresceu nas mãos do Verbo, que não só colaborou com Deus, mas é Deus: “o Verbo era Deus”.
E “o Verbo fez-se carne”, fez-Se homem semelhante a nós. Fez-se homem, e homem pobre, ainda que tudo quanto existe tenha sido feito para Ele. Para Ele e para nós, chamados à vida pelo Pai para sermos companheiros e amigos do seu Filho humanado.
O Verbo, “o Filho único cheio de amor e de verdade” veio ao nosso encontro, fez-se solidário connosco para nos reconduzir ao Pai. Revelou-nos o projeto divino sobre nós e sobre a criação. Tornou-se modelo e meta da nova Humanidade, dinamismo de mundo novo.
“N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens”. O Verbo Encarnado veio comunicar-nos a vida e acender a luz que ilumina o nosso caminho, para podermos encontrar essa vida, a vida verdadeira e plena, como Deus a sonhou para nós. A criação inteira, os homens e as mulheres, as crianças e os idosos, os sãos e os doentes, os migrantes e os refugiados, todos recebemos a vida e somos iluminados por Cristo, o novo Sol do universo e da Humanidade, a Estrela da manhã de um novo dia.
“Veio ao que era seu e os seus não O receberam.” Nem todos O receberam. Os que teimam em manter os homens prisioneiros do egoísmo e do pecado, verdadeiros inimigos da vida, opuseram-se a Jesus e condenaram-no à morte. Mas não há maldade nem força que O vença! “Ele reinará pelos séculos dos séculos!” (Ap 11, 15).
“Àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” Quantos acolhem Jesus, e a Ele aderem cordialmente na fé, podem atingir a plenitude, tornar-se filhos de Deus, filhos no Filho. Iluminados e aquecidos pelo fogo que Ele veio trazer à terra, podemos entrar na dinâmica da nova Humanidade e do mundo novo inaugurados na Encarnação do Verbo.
E o Verbo revela-nos a ternura de Deus, que não hesitou em oferecer-nos o que tem de mais caro para que, n’Ele e por Ele, alcancemos a nossa plena realização: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho” (Jo 3, 16). Simultaneamente, revelou-nos o maravilhoso projeto que tem para nós: tornar-nos participantes da sua natureza divina.
De que precisamos ainda para reconhecermos o nosso valor, a nossa dignidade, o valor e a dignidade de todos os homens e mulheres da terra? Jesus Menino, como ninguém e nada mais, eleva a nossa autoestima, faz-nos estimar os outros e reacende em nós a esperança de um mundo pacífico, fraterno e feliz.
Na humilde palha do presépio, repousa a primeira espiga de um trigo novo: o Trigo que Deus semeou no seio de Maria, para nos alimentar, para nos dar mais vida, para nos iluminar, para nos tornar definitivamente felizes. “Deixemos Jesus repousar em nós, deixemo-lo habitar na pobre gruta do nosso coração, porque, no Natal, Jesus nasce em nós!” (L. Dehon).
Pe. Fernando Fonseca, SCJ