O paradigma tecnocrático, com o seu espírito de competição feroz e agressiva e a sua ambição cega de dominar e submeter a si todas as coisas, tem gerado um sofrimento crescente, continuado e incontrolável.

Há muita gente, cujo horizonte de vida é sobreviver e isto repete-se dia após dia, até ao dia em que já não é possível fazê-lo mais. Os vencedores desta partida desigual não se dão conta – ou não querem – da dor que deixam atrás de si, dor que não é passageira nem ligeira, dor cauterizada pela desesperança e resignação. Os vencedores desta partida injusta «não reconhecem às outras criaturas o seu valor, não sentem interesse em cuidar de algo para os outros, não conseguem impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação do que nos rodeia» (LS 208).

Como só dos fortes reza a história, esta história do imenso sofrimento da humanidade e da natureza não será nunca escrita, porque, no final de contas, é vergonhosa. Além disso, por causa das suas grandes dimensões e do pouco que se tem feito para inverter a situação, também não se pode, pura e simplesmente, varrer para debaixo do tapete. A verdade é que «nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos» (LS 53). A verdade é que uma grande parte da humanidade carrega às suas costas um sofrimento injusto e imerecido, enquanto outra parte contempla essa situação a partir da tranquilidade ilusória do seu sofá. Ainda que sejam os mais pobres a pagar a factura mais pesada da crise ecológica, esta parece não fazer acepção de pessoas e tem-se manifestado também em países e regiões consideradas ricas e desenvolvidas. Talvez assim acordem do seu sono…

Parece que, em algumas etapas marcantes da história, os homens foram capazes de se unir uns aos outros e assim conseguiram superar os obstáculos que lhes surgiram pela frente. A capacidade de interajuda e colaboração mútua foi preponderante para a afirmação do ser humano como tal, elevando-se bem acima dos animais. Sempre que os seres humanos optaram por cooperar entre si – em lugar de competir uns contra os outros –, produziu-se um grande avanço civilizacional. Hoje chegamos novamente a um momento da história em que todos teremos de nos unir, se quisermos realmente superar esta prova de grandes dimensões abrangentes.

Os crentes sabem que Deus está atento ao sofrimento do seu povo e não se limita a reconhecer a sua existência. O sofrimento dos seus filhos muito amados chega ao coração do próprio Deus e Ele não permanece insensível ou distraído a esses clamores de dor e angústia. Também Maria, «a mãe que cuidou de Jesus, cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano» (LS 241).

José Domingos Ferreira, scj