O sonho de José e os sonhos de Deus

O evangelista Mateus apresenta-nos José, homem justo, perplexo e angustiado. A sua casa está pronta e o casamento garantido. A sua noiva ocupa-lhe os pensamentos e preenche-lhe os projetos. Mas, de repente, tudo parece ruir. Maria está grávida. José não compreende e entra num tremendo conflito emocional e espiritual. Não sossega de dia nem de noite. A Lei obriga-o a denunciar o crime que será drasticamente castigado: “Ambos deverão morrer… Extirparás o mal de Israel” (cf. Dt 22,22). Mas o amor por Maria induz José a protegê-la.

Então, o Anjo de Deus, isto é, o próprio Deus, enquanto o santo carpinteiro dormia e sonhava, intervém e revela-lhe os Seus próprios sonhos: “Não tenhas medo de receber Maria, tua esposa…o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo; Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus”. Com estas palavras, Deus revela a José a origem do Filho gerado em Maria e o dever de lhe assumir a paternidade: “tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus”. Depois, indica-lhe a missão confiada a esse Filho: “Ele salvará o povo dos seus pecados”.

Deus manifesta-Se e revela-nos os seus sonhos quando e como quer. E os sonhos de Deus são sempre de salvação para nós e para toda a Humanidade. O próprio nome de Jesus o indica. O termo vem do hebraico “Jeshuà” que deriva do verbo ‘salvar’, cuja raiz, ‘ish há’, tem como primeiro significado ‘alargar’, ‘dilatar’. A missão de Jesus é salvar, isto é, alargar, dilatar, expandir a nossa vida e a vida do seu povo. Salvar o homem do pecado é libertá-la da única situação que verdadeiramente se opõe à vida. Porque o pecado atrofia a vida, amesquinha o coração, não deixa em nós espaço para Deus nem para os outros. A fé, pelo contrário, alarga-nos a mente, dilata-nos o coração, amplia-nos as perspetivas e expande os horizontes da Humanidade.

No Mistério da Encarnação e do Nascimento de Jesus, Deus faz-se solidário connosco para que cresçamos em humanidade, nos tornemos capazes de acolher a Divindade e de participar da vida divina. “A sua vida manifesta-se em nós… participamos da vida divina e, de algum modo, da natureza divina” (L. Dehon).

É importante termos sonhos. Mais importante é acolhermos os sonhos de Deus.

Pe. Fernando Fonseca, SCJ