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O bom samaritano aparece como alguém que tem tempo para os outros. Ao debruçar-se para tratar o homem ferido, «deu-lhe algo que, neste mundo apressado, regateamos tanto: deu-lhe o seu tempo. Tinha certamente os seus planos para aproveitar aquele dia a bem das suas necessidades, compromissos ou desejos. Mas conseguiu deixar tudo de lado à vista do ferido e, sem o conhecer, considerou-o digno de lhe dedicar o seu tempo» (FT 63).

Hoje queixamo-nos muito da falta de tempo e sentimos que o tempo nos devora avidamente. Aliás, parece até que a falta de tempo se tornou na justificação que habitualmente damos para não fazer aquilo que não queremos e assim confirmamos a tese de que uma boa mentira tem de ter muito de verdade. Se fosse possível, já teríamos criado um dia com 30 horas, para ver se assim conseguíamos fazer tudo o que temos em mãos.

A verdade é que não só nos queixamos da falta de tempo, mas também de andarmos sempre a correr de um lado para o outro (é a famosa «rapidação» de que fala a Laudato si’, n. 18). Como sentimos o tempo como algo escasso, aceleramos para ver se este tempo de que dispomos dá para a maior parte das coisas que queremos fazer.

Apesar de tudo isto, o papa Francisco vem pôr o dedo na ferida e diz que, por detrás da nossa falta de tempo, está o facto de «estarmos todos muito concentrados nas nossas necessidades». Esta nossa autorreferencialidade chega a ser gritante, a tal ponto que «ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios» (FT 65). Será que temos realmente pouco tempo ou o que nos falta é tempo para o outro? Aquilo que se vê a cada passo é que nos custa muito abrandar a marcha e parar junto do outro. Tornou-se difícil manter uma conversa que dure mais de uns dois minutos, porque estamos sempre a pensar no que temos para fazer a seguir. E, quando há alguém que de facto o consegue, somos rápidos a etiquetar: “não deve ter nada para fazer…”.

No fundo, falta-nos tempo, porque andamos muito focados em nós e esquecemo-nos daquela verdade fundamental que o bom samaritano também nos ensina: que «a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro» (FT 66). Vinícius de Moraes dizia que «a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Daí a pergunta: em que actividades andamos a gastar o nosso tempo? Como gerimos o tempo de que dispomos?

O Covid fechou-nos em casa e assim muitas correrias deixam de ser possíveis. Este é um momento oportuno para recuperar o tempo ou, pelo menos, uma outra forma de viver o tempo. Ser pessoas com tempo para os outros parece-me uma maneira muito bela e sugestiva de vivermos e nos apresentarmos como cristãos nos dias de hoje.

 

José Domingos Ferreira, scj