Custa muito mudar! Se em novo parece mais fácil, quanto mais vamos para velhos, mais difícil se faz. Os hábitos e os costumes ficam mais arraigados pela repetição contínua ao longo do tempo e, porque repetidos continuamente, dão-nos uma segurança da qual não queremos abdicar. Mudar é lançar-se em mares desconhecidos e imprevisíveis e nem todos se sentem navegadores intrépidos e corajosos…

Mudar custa tanto que o caminho mais fácil é o de querer mudar tudo à nossa volta, pensando que assim já não teremos de nos mudar a nós próprios. Portanto, mudamos de visual, mudamos a decoração da casa, mudamos de automóvel…, mas não permitimos que o nosso coração se transforme. Os cristãos até têm aquela altura do ano litúrgico em que a palavra “conversão” ganha força e mediatismo, mas Deus lá saberá o que é que realmente ela significará. Às vezes, fica a impressão que é apenas um refrão cantado pela maioria, mas vivido apenas por uma invisível minoria.

Há alturas, porém, na nossa vida em que a mudança se torna prioritária e urgente, sob pena de não ser mais possível prosseguir a caminhada. São esses momentos em que nos sentimos encostados à parede e nos apercebemos que entramos num beco sem saída. Ainda que nos custe, quando estamos à beira do precipício, sabemos que não temos outra possibilidade que não seja a de mudar realmente.

Vivemos um “Tempo da Criação” que nos convida a despertarmos para a necessidade de mudar de vida, de adoptar novos hábitos, de assumir um outro estilo de vida. Não foram só os anos 20 do século passado que foram loucos. Hoje estamos a viver as consequências dos loucos anos 70, 80, 90 e por aí adiante. Vivemos de forma desgovernada, inconsciente e descontrolada, mas agora precisamos de inverter a marcha, porque a vida neste planeta se encontra ameaçada e a tornar-se insustentável. Como consequência, «toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades» (LS 5).

É certo que, como mudar custa muito, também aqui existem aqueles que preferem negar tudo o que está a acontecer. Outros preferirão pensar numa teoria da conspiração, enquanto outros ficarão de braços cruzados à espera que alguém resolva esta situação por eles. Em qualquer um dos casos, estas possibilidades são recusas – mais ou menos declaradas – em mudar de vida.

Em sentido contrário, «a esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas» (LS 61). Dito doutra forma, mas recorrendo novamente às palavras do Papa Francisco, «quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade» (LS 208).

José Domingos Ferreira, scj