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Olá! Um abraço do Gurué!

No passado dia 3 de janeiro vim para Moçambique acompanhado pelo Superior Provincial, Padre José Agostinho. A nossa partida foi tranquila e bastante pontual, o que aliás também aconteceu no voo interno. Nos novos aviões da TAP fizemos um excelente voo, chegámos a Maputo ao início da manhã do dia 4, e tínhamos à nossa espera um amigo de longa data, o Irmão Meoni, com quem vivi dois anos no Gurué, entre 1998 e 2000.

A passagem por Maputo foi breve, dando apenas tempo para dar um passeio pela cidade e constatar vários melhoramentos na cidade. Talvez o aspeto que salta mais à vista num primeiro momento é que as ruas estão asfaltadas, bem mais transitáveis e não há lixo espalhado. Há que dar os parabéns por esta bela notícia para quem quer visitar Maputo. Lá nos foram dizendo que a realidade dentro dos bairros é outra. A alguns ainda não chegou o asfalto. São realidades diferentes, no entanto, não houve tempo para visitar. À noite ainda houve tempo para nos refrescarmos junto à marginal, passando depois pela experiência de soprar o balão. Claro, o motorista tinha 0% de álcool. O Irmão no final dizia ao polícia que éramos padres e ele perguntou porque não dizíamos isso antes. Mas a curiosidade do Irmão em soprar o balão pela primeira vez foi mais forte… Nesta primeira comunidade encontrámos o Padre Meloni, que passou por Portugal a estudar português e é professor de Filosofia e atualmente é também responsável pelo Instituto Salesiano de ensino superior, dada a necessidade de ser dirigido por um doutorado. E encontrámos também o Padre Saraiva, natural do Alto-Molócoé, pároco na cidade de Maputo.

No dia seguinte marchámos (voámos durante uma hora e vinte minutos) para Quelimane, onde estava à nossa espera o Padre Tadeu, Ecónomo Provincial. Um homem de Angónia (província de Tete), que tem uma disponibilidade extraordinária e uma paciência de santo para resolver todas as pequenas dificuldades que vão aparecendo. Num pequeno passeio que fiz com ele dizia esta é a minha cidade. E, de facto, sabia bem contornar as ruas com buracos, que são já muitos. A chegada foi de grande satisfação para todos e altura para rever amigos de longa data. O Padre Enzo Toller, o Padre Aldo Marchesini, o Padre Alessandro Capoferri, e o Padre Renato Comastri, todos italianos, e os padres moçambicanos mais antigos, nomeadamente o Padre Carlos Lobo, que é nosso conhecido de longa data.

A partida para o Gurué deu-se após o almoço, com a vinda dos padres das várias comunidades que se juntaram em Quelimane para virem para o Gurué para o retiro a ser pregado pelo Padre José Agostinho. Passámos por Mocuba a visitar as Irmãs do Amor de Deus e comer o queijo de cabra feito pelas Irmãs. Aqui as vacas leiteiras não abundam pelo que a tradição está em usar as alternativas, nomeadamente as cabras leiteiras que dão um leite muito bom e capaz de produzir um queijo muito agradável. A casa que visitámos é também um Hospital das Irmãs. A Irmã mais conhecida é a Paquita, irmã natural da Espanha. Recordámos que antigamente parávamos muito na casa dos padres Capuchinhos, de que me lembro o D. Chimoio, que muito bem me recebia naquela comunidade.

Pelo caminho, eu e o Padre José Agostinho recordávamos alguns dos momentos que tínhamos vivido juntos em 2004, altura em que pela primeira vez houve um grupo de voluntários a fazer as experiências missionárias de um mês, aquelas que para alguns são férias. E sim, são férias, pois os voluntários que vêm só irão ter férias no ano seguinte. Ainda assim, felizmente são muitos os que fazem esta opção. Era com orgulho e nostalgia que recordávamos aquela experiência e falávamos das pessoas que connosco vieram. Como tanta coisa está diferente em 16 anos. Além das pequenas peripécias, como a bebida de uma cerveja em Mocuba, que deveria ser fresca, mas como não havia eletricidade, foi mesmo assim ao natural (quente!), tanta era sede.

Após esta paragem, viemos para o Gurué. Chegámos ao final do dia. Aí houve tempo para tirar algumas fotos de família e enviar para Portugal à família e amigos. A grande surpresa foi quando enviei as fotos do Centro Polivalente Leão Dehon e do quarto. Estavam todos muito surpreendidos que havia condições de habitabilidade. Na verdade, com tantas imagens de miséria, aquilo que fica é sempre o menos positivo e menos agradável, raramente nos apercebemos que também existem coisas boas a acontecer, mudanças que são cada vez mais visíveis.

Uma breve nota sobre a casa e esta comunidade religiosa. A Comunidade do Centro Polivalente Leão Dehon é uma comunidade que sempre teve pessoas de várias origens. Entre italianos, portugueses e moçambicanos, sempre houve muita presença de padres dehonianos. Esta comunidade (re)nasce em 1994, dado que a comunidade original se chamava Escola das Artes e Ofícios, fundada no início dos anos 70. O retomar das atividades ficou marcado por deixar o passado lá para trás, pelo que agora era tempo de construir um novo rumo e futuro. Assim, o Padre Ilario Verri, juntamente com alguns padres moçambicanos, lançaram mãos à obra e começaram a renovação dos espaços. Esta renovação foi apoiada por imensa gente da Europa: Alemanha, Áustria, França, Itália, Inglaterra, Portugal e Suíça, entre outros. Naturalmente que a maioria vinha da Itália, e em particular do Norte da Itália, donde tinha vindo o padre indústria ou Cavado, como ele tantas vezes chamava aos outros e entretanto também ficou conhecido. A presença portuguesa nesta comunidade remonta a 1996 quando vim a primeira vez com o Padre Roberto Viana, que vivia no Noviciado, outra comunidade religiosa que temos no Gurué. Com a nossa presença, o Padre Adérito Barbosa aproveitou para iniciar um projeto laical arrojado, a Associação de Leigos Voluntários Dehonianos, que teve uma primeira experiência em julho de 2000. A partir daí muitos foram aqueles que vieram por um, dois, três, seis meses e um ou dois anos. A marca da nossa presença está muito bem vincada. Não haja dúvidas, a presença dehoniana portuguesa quer pela via dos seminaristas em estágio de vida religiosa, quer pela via dos voluntários, foi um sucesso. Parabéns a todos aqueles que nestes anos fizeram parte desta grande família. Todos reconhecem o vosso esforço e dedicação. Aqui é justo deixar uma palavra especial ao Padre Adérito que, mesmo não sendo conhecido pelas pessoas de então, ficou conhecido pelo seu trabalho através da ALVD.

A minha chegada é uma alegria para os meus colegas que vêm reforçada a sua presença, com uma comunidade que será de cinco padres. Para o Superior Provincial de Moçambique nunca tinha havido tantos, mas como a memória ainda está fresca lembrei que há vinte anos éramos cinco padres e ainda estavam os jovens religiosos de Portugal, as manas da Companhia Missionária e as Irmãos do Imaculado Coração de Maria. Este esforço dos primeiros anos já está a dar frutos. De momento, tomei conhecimento que a Escola Básica Industrial do Gurué termina este ano, pois o ano de entrada para os cursos profissionais passa a ser o 10º ano de escolaridade. Assim, também o projeto que ajudámos a nascer do Instituto Médio Agro Pecuário do Gurué termina funções. Nasce um novo projeto, mais exigente, que não seria possível há vinte, nem há doze anos, o Instituto Médio Agro Industrial do Gurué, IMAIG. É um nome pomposo, mas que precisa de novo apoio. Aqui os colegas reforçam a ideia de se retomar a colaboração dos portugueses. Um belo desafio para a ALVD, que nos últimos anos respondeu, e bem, a outras paragens…

Grato ao Superior Provincial, Padre José Agostinho, por me ter deixado partir para as missões no ano missionário, dado que certamente poderia reforçar a nossa presença nalguma das nossas comunidades em Portugal, aqui vim para responder ao pedido que ele mesmo me fez em 2016, após um pedido do Superior Provincial de Moçambique, Padre Renato Comastri. A minha vinda não é obra de uma iniciativa de última hora, antes pelo contrário, é resultado de um trabalho de cooperação entre as duas Províncias. A minha vinda está diretamente associada à resposta que a Província Moçambicana quer dar à urgência de reforçar o ensino em Moçambique. Assim, numa próxima oportunidade irei dar a conhecer o projeto que me foi pedido e que deixa de ser um projeto dos portugueses, dado que tinha vários paroquianos de Carnaxide envolvidos, para passar a ser o projeto de todos em Moçambique.

Certamente irei dar outras notícias sobre este projeto, mas por agora a conversa vai longa e depois, ficamos cansados! Diz o povo: longe da vista, longe do coração. Procurarei que isso não nos aconteça. Um abraço e até breve.

Luciano Vieira, SCJ ao serviço de Moçambique