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Um dos temas recorrentes no papa Francisco é a indiferença. Trata-se de um vírus que seca o coração, insensibiliza o nosso olhar e atrofia as nossas mãos. Um vírus que já há muito tempo estava a alastrar pelo mundo e não consta que se tivessem erguido muitas vozes para o destapar nem muitos esforços para o eliminar.

Na Laudato si’, o Papa tinha denunciado uma «indiferença globalizada» perante as várias tragédias que afectam muitos irmãos nossos por esse mundo fora, o que – na sua leitura – constituía «um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil» (LS 25). Precisamente porque nos tornarmos indiferentes à sorte dos outros, é que é quase impossível chegar a soluções concretas para os problemas que se abatem sobre o mundo. Andamos tão ocupados e preocupados connosco – e com as nossas necessidades – que não nos interessamos pelo que acontece para lá do nosso horizonte cada vez mais estreito.

Há cinco anos, afirmava o Papa que «uma nova solidariedade universal» (LS 14) implica «revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença» (LS 52). É uma afirmação verdadeiramente profética, pois estaria longe de adivinhar que, em 2020, andaríamos às voltas com um vírus, que se tem revelado o maior especialista mundial na globalização, nos seus efeitos e sobretudo nas suas potencialidades…

Na Fratelli Tutti, o Papa insiste novamente neste ao tema, ao dizer que, hoje, «reina uma indiferença acomodada, fria e globalizada, filha duma profunda desilusão que se esconde por detrás desta ilusão enganadora: considerar que podemos ser omnipotentes e esquecer que nos encontramos todos no mesmo barco» (FT 30). Pede, por isso, que a indiferença não seja a «única resposta possível», mas que ousemos «criar uma cultura diferente» (FT 57). É muito evidente que o sacerdote e o levita da parábola do bom samaritano representam esta «perigosa indiferença que leva a não parar, inocente ou não, fruto do desprezo ou duma triste distracção» (FT 73), mas aquilo que nos falta hoje são samaritanos que não passem ao lado. Sabemos bem que, no meio desta pandemia, crescem continuamente os feridos abandonados à beira do caminho. Mais do que nunca, a indiferença mata, porque simplesmente deixa morrer…

Enquanto cristãos, a única indiferença que nos é permitida é aquela de que falava S. Inácio e que nos dá «uma estupenda liberdade interior: “é necessário tornar-nos indiferentes face a todas as coisas criadas (em tudo aquilo que seja permitido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe esteja proibido), de tal modo que, por nós mesmos, não queiramos mais a saúde do que a doença, mais a riqueza do que a pobreza, mais a honra do que a desonra, mais uma vida longa do que curta, e assim em tudo o resto» (GE 67).

 José Domingos Ferreira, scj