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Segundo a definição dada no dicionário online Priberam, um paradoxo é “a situação ou afirmação que contém uma contradição ou uma falta de lógica”. Quanto mais tempo vivemos, mais nos apercebemos que a nossa vida está cheia de pequenos e grandes paradoxos. Inclusivamente, ficamos desconfiados, quando nos explicam alguma dimensão da realidade de uma forma que nos pareça demasiado lógica e arrumada, porque isso nos soa pouco provável. Mas não podemos esquecer que algumas contradições se tornaram escandalosas e injustificáveis.

Estas linhas servem precisamente para falar do “paradoxo da abundância”. De uma forma breve, explica-se assim: há alimentos para toda a gente, mas a verdade é que nem todos têm acesso. Há gente a morrer à fome nalguns lugares bem identificados do nosso mundo, mas noutras zonas assistimos ao desperdício, ao descarte, ao consumismo excessivo e até ao uso de alimentos para outros fins. Enquanto muitos se contentam com uma só refeição por dia, há quem não fique satisfeito com duas sobremesas numa mesma refeição… E o que dizer dos alimentos deitados ao lixo, porque não se consegue escoar a produção ou porque não se quer baixar o seu preço?

Este “paradoxo da abundância” assenta também no reconhecimento de que hoje, naquela parte do globo dita desenvolvida, «temos demasiados meios para escassos e raquíticos fins» (LS 203), pois «a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento» (LS 222). Como temos tantas coisas ao nosso dispor, acabamos por não lhes dar o devido valor nem retirar delas a natural satisfação que proporcionam. Consumir não é sinónimo de desfrutar!

Uma imagem que pode ilustrar este paradoxo é a obesidade, típica das sociedades desenvolvidas. A abundância – enquanto «mera acumulação de prazeres» (LS 222) – tem sido tanta que acabamos por nos desfigurar de forma incrível e impensável. O consumo excessivo deixa marcas no nosso corpo, sobretudo se está associado a uma vida sedentária e acomodada. Por isso, não é de admirar que cresçam os ginásios e que, de repente, se tenha tornado uma necessidade imperiosa e urgente reaprender a comer. Veja-se, com efeito, o crescente destaque dado aos nutricionistas nos meios de comunicação social, mas note-se como as conversas mais triviais giram em torno àquilo que se pode comer, àquilo que engorda ou simplesmente aos efeitos benéficos de determinados alimentos.

Talvez a Igreja e os cristãos tenhamos pecado por timidez ou vergonha, ao deixar de propor os valores da temperança e da moderação, do «quanto menos, tanto mais» (LS 222). Num momento em que o crescimento económico ficou seriamente abalado, toca-nos voltar a propor «um crescimento na sobriedade» (LS 222).

 José Domingos Ferreira, scj