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Desde os tempos mais remotos, o ser humano tem-se lançado à estrada. São muitas as razões que o levam a empreender uma caminhada. Quando o percurso tem como destino um lugar especial (costumamos dizer «sagrado»), falamos em peregrinação. Com esta palavra, estamos a dar um sentido espiritual ao nosso caminhar e, ao mesmo tempo, a marcar uma diferença relativamente a outras caminhadas.

Ao longo dos séculos, a peregrinação tornou-se tão importante e frequente, que se constituiu em metáfora da própria vida humana. Já na longínqua Idade Média, os cristãos peregrinavam a Roma e à Terra Santa, e também a Santiago de Compostela. De facto, o ser humano, de todos os tempos, lugares, culturas e credos, revela-se como pessoa a caminho, alguém que não tem aqui a sua morada permanente…

Um peregrino não é um nómada nem um ser errante. Ele tem sempre uma meta, um destino, um horizonte, o que, desde o princípio, dá uma ordem e um sentido ao seu caminhar. E isto faz muita diferença, até na forma como a pessoa se move: a motivação é outra, a resistência ao desânimo é maior, a esperança não se apaga…

Um bom peregrino é um especialista na arte de fazer a mala. Sabemos que o peso a mais passará factura ao longo do caminho, pelo que a sobriedade à hora de decidir o que levar consigo pode ser determinante para alcançar a meta final. O peregrino testemunha que «a sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora» (LS 223). Esta é, aliás, uma lição para toda a pessoa que queira viver com sabedoria. O peregrino procura levar consigo apenas o que é essencial e indispensável. Desta forma, ele experimenta que «quanto menos, tanto mais» (LS 222) e descobre que a felicidade é muito mais que o bem-estar ou o prazer de acumular coisas. Com efeito, «a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos» (LS 222).

Por último, ao reclamar uma grande sobriedade à hora de encher a mochila, a peregrinação convoca para um despojamento mais profundo, convidando-nos a abandonar tantas gorduras acumuladas, que fazem o nosso caminhar mais lento, mais pesado, mais triste. Ao termos deixado em casa tantos objectos dispensáveis, demos o primeiro passo para nos libertarmos dessas outras coisas mais nossas, às quais estamos mais atados e acorrentados: o nosso egoísmo, o nosso orgulho, a nossa auto-suficiência… A peregrinação é também para isto…, ou melhor, sobretudo para isto.

José Domingos Ferreira, scj