Há poucos dias, depois de presidir à eucaristia, comentei com uma senhora que estava na sacristia: «nunca me aconteceu que, ao distribuir a comunhão a uma pessoa, ela retirasse os óculos para comungar». Ela sorriu abertamente, porque percebeu que estava a falar dela, mas depois comentou: «com os anos, uma pessoa perde os olhos, perde os ouvidos, perde o cabelo…».

Efectivamente, com os anos, perdemos a audição, a visão e, por extensão, a saúde. Perdemos a memória e aquelas outras faculdades com as quais nos distinguíamos dos outros. Sob esta perspectiva, a vida parece então ser uma sucessão de perdas que se seguem umas às outras. As próprias árvores, nesta altura do ano tão cheias de vida e de cor, perdem as suas folhas e, por acção humana, perdem os seus ramos.

Com os anos, perdemos os amigos e os vínculos construídos. Nalgumas situações, perdemos inclusivamente a fé e algumas convicções que outrora pareciam inabaláveis e que davam sentido à nossa vida. Parece que, por exemplo, temos vindo a perder a crença na ressurreição… A isto acresce que, por uma decisão exclusivamente nossa, nos podemos tornar «especialistas na arte de perder», ou seja, além das perdas inerentes à própria vida, ousamos ir mais além e aceitamos perder os melhores amigos por causa duma discussão trivial; aceitamos perder uma família por causa de uma divergência de opinião; abdicamos de sonhos por umas quantas razões que não têm razão de ser. Enfim, parece que não nos custa muito perder realidades extremamente importantes por uns míseros trocos… Perdemos os anéis e também os dedos…

Tudo isto nos deve levar a pensar que precisamos de aprender a perder. Precisamos de alcançar uma sabedoria que nos ajude a integrar as perdas inevitáveis da nossa vida e a saber viver com isso, sem cairmos na tristeza e no desalento. Necessitamos de uma sabedoria que nos ajude a manter a paz de espírito no meio de um vasto processo de despojamento. Necessitamos de uma sabedoria que nos ajude a descobrir, no meio de tantas perdas, o valor do desapego.

Deve fazer-nos pensar, porém, que tudo isto está em claro contraste com uma mentalidade ganhadora que impera na nossa sociedade. Quando se procura o êxito a todo o custo, como é que se consegue lidar com estas perdas? Quando só a vitória interessa, que sentido tem iniciar um caminho de desapropriação?

Talvez agora possamos entender um pouco melhor aquelas palavras de S. Paulo: «tudo quanto para mim era ganho, isso mesmo considerei perda por causa de Cristo. Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé» (Flp 3, 7-9).

 

José Domingos Ferreira, scj