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A crise ecológica faz emergir uma visão do pecado como desperdício. A cultura que respiramos está marcada pelo excesso, a vários níveis: excesso de imagens e de informação, excesso de bens e possibilidades, excesso de emoções e de experiências, excesso de real e de virtual, excesso de diagnóstico e de análise, excesso de produção e de consumo… O papa Francisco acrescenta ainda outro, não menos preocupante, e que talvez seja o que se encontra na base de todos os outros: «nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais» (LS 116).

As enormes dimensões dos nossos aterros municipais (as vulgares lixeiras) são uma boa imagem para descrever uma sociedade do desperdício, onde tudo é descartável e de uma única utilização. Esses lugares – verdadeiros desertos inóspitos à porta das nossas cidades – nascem precisamente daquilo que deitamos fora, muitas vezes de forma leviana e irresponsável. O pecado aparece então como um fracasso do amor que nos leva a desperdiçar tantos dons, oportunidades e apelos dados por Deus.

Com toda a naturalidade (uma triste naturalidade, obviamente), uma civilização marcada por um desequilíbrio gritante entre o progresso material e o espiritual deu origem a um estilo de vida desordenado, assente no «desfruta e deita fora». Tudo nos faz esquecer o poder nefasto do desperdício sobre o nosso próprio coração. O desperdício empobrece-nos até ao ponto de secar a nossa vida interior. O desperdício torna-nos indiferentes a tudo o que se passa à nossa volta.

Reconhecer o nosso pecado é então a única via que agrada a Deus e aos homens. Cada um de nós é chamado a «arrepender-se do próprio modo de maltratar o Planeta, porque todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração ou destruição do ambiente». Neste sentido, «quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da Terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a Terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado. Porque um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus» (LS 8).

Reconhecer o nosso pecado e arrepender-se leva a encetar uma viagem de regresso a uma vida mais sóbria e simples, capaz de contentar-se com pouco e alegrar-se muito, capaz de desfrutar e valorizar os pequenos prazeres da vida, especialmente os encontros entre as pessoas, o serviço aos outros, o desenvolvimento dos nossos talentos, a arte, a natureza, a oração…

José Domingos Ferreira, scj