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Pensar e gerar um mundo aberto traz à ribalta o tema da hospitalidade como um valor a ser proposto e vivido genuinamente nos dias de hoje. Ser mais hospitaleiro é uma forma concreta de contribuir para um mundo mais acolhedor, mas é também uma via ampla para entrarmos, com mais intensidade, neste movimento de saída de nós próprios.

A hospitalidade é acolher aquele que é diferente de nós e que, nalgumas circunstâncias, até nos pode parecer estranho ou mesmo causar aversão. De alguma forma, implica aceitar ser incomodado e desacomodar-se, o que talvez seja ainda mais difícil. A hospitalidade exige superar o medo e a desconfiança perante o outro, o que não é de todo óbvio, particularmente num mundo onde se tornou mais fácil desconfiar que confiar, sobretudo a partir do momento em que aprendemos a associar desconfiança e prudência…

Diz o papa Francisco que «não é sem razão que muitas populações pequenas e sobrevivendo em áreas desérticas conseguiram desenvolver uma generosa capacidade de acolhimento dos peregrinos que passavam, dando assim um sinal exemplar do dever sagrado da hospitalidade». Salta, logo de seguida, para um outro exemplo: «viveram-no também as comunidades monásticas medievais, como se verifica na Regra de São Bento. Embora pudessem perturbar a ordem e o silêncio dos mosteiros, Bento exigia que se tratasse os pobres e os peregrinos com toda a consideração e carinho possíveis».

Parece-me necessário reconhecer que uma coisa é acolher os turistas, que vêm alimentar a nossa economia e para os quais pomos um sorriso aberto de simpatia, e outra coisa é acolher aqueles que vêm em busca de melhores condições de vida. Talvez não possamos fazer grandes coisas perante esta última situação, mas é importante que nos perguntemos: como olhamos para esta gente? O que sentimos quando estamos na sua presença? Que preconceitos nos invadem? Que medos despertam em nós? É que, quando não conseguimos viver o valor da hospitalidade, é fácil que os outros sejam uma ameaça ao nosso bem-estar, um invasor do nosso país, alguém que nos vem roubar o emprego…

Conclui o papa, dizendo que «a hospitalidade é uma maneira concreta de não se privar deste desafio e deste dom que é o encontro com a humanidade mais além do próprio grupo. Aquelas pessoas reconheciam que todos os valores por elas cultivados deviam ser acompanhados por esta capacidade de se transcender a si mesmas numa abertura aos outros» (FT 90). Portanto, uma coisa é viver em sociedade e outra coisa é ser uma sociedade aberta e hospitaleira; uma coisa é promover a nossa imagem no estrangeiro como um país acolhedor e de gente simpática e outra coisa é realmente abrir as portas das nossas casas e do nosso coração ao imigrante…

José Domingos Ferreira, scj