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Um modo novo de habitar o mundo começa a ser construído, quando nos apercebemos do paradigma tecnocrático que nos domina e sob o qual vivemos. De facto, ele tem conseguido manter-nos adormecidos ou nesse estado de inconsciência inocente, em que perdemos um pouco a noção da realidade, o que acaba sempre por acarretar consequências desagradáveis. Por conseguinte, quando nos damos conta dos males que esta visão da realidade está a causar a toda a criação, podemos iniciar caminhos novos e percursos alternativos, capazes inverter esta marcha destruidora e suicida.

Felizmente, esta consciência está a crescer um pouco por todo o mundo e nós, cristãos, podemos sempre rezar para que o Espírito Santo a incremente e desenvolva ainda mais, de modo que ela se possa alastrar a um número maior de habitantes deste planeta. Com efeito, esta talvez seja a altura ideal para recordar aquele provérbio português que diz «um olho no burro e outro no cigano». Por estes dias, demos uma olhadela esperançada ao que se vai passando em Madrid, mas sem nunca deixar de olhar realisticamente o que acontece à nossa volta e assim renovarmos o nosso compromisso activo e responsável perante o mundo que habitamos.

Devemos estar cientes que vivemos subjugados por uma visão tecnocrática da realidade, assente num antropocentrismo desordenado e numa idiolatria da tecnologia. O mais frequente é deixarmo-nos inebriar pelas novidades tecnológicas e tornamo-nos tão dependentes delas, que já não nos apercebemos dos malefícios e perigos que elas escondem. Queira Deus que o convívio familiar da noite de Natal não seja nunca substituído pelos tablets e telemóveis!

Não nos podemos esquecer que a raiz principal da crise ecológica está no ser humano, que enveredou por «um modo desordenado de conceber a sua vida e acção» (LS 101). De facto, continuamos a achar que somos Deus e, com toda a lógica do mundo, queremos ocupar o lugar dele. Este tem sido um atrevimento muito comum ao longo do tempo, mas parece que cada época mostra uma reduzida autoconsciência desta sua arrogância em bicos de pés.

Neste tempo do Natal, seria bom que nos déssemos conta de como o «consumismo obsessivo é o reflexo subjetivo do paradigma tecnoeconómico» (LS 203), que nos tenta impingir essa falácia de que viver é consumir. Não é verdade que somos mais felizes quando compramos mais e nos enchemos com coisas de que não teremos tempo para desfrutar. Neste sentido, a simplicidade e a humildade do presépio constituem um ensinamento muito profundo de que se pode ser feliz com pouco, aliás, com muito pouco!!!

José Domingos Ferreira, scj