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Na vivência da Quaresma concentra-se o mais importante da espiritualidade cristã
Sempre que ao ritmo do ano, dos meses, das estações, se aproxima a Quaresma, vêm-me à memória intensas recordações da infância, daquelas coisas que, como diz a minha Mãe muito velhinha, nunca mais me esqueci. Era o jogo do pião, que, nunca soube porquê, se jogava neste tempo; o entrudo, com os mascarados e as ‘melaçadas’; os Romeiros a percorrerem a Ilha em oração e penitência, alguns deles – o rancho das Furnas – que ficavam lá na terra, e a minha família acolhia sempre alguns ‘irmãos’; o meu pai, que, no dia do entrudo à noite, limpava cuidadosamente a viola e a guardava, porque dizia, ‘na quaresma não cantamos…’, até à Páscoa; e de outra coisa que lhe ouvi, quando ele arrumava as folhas de espadana com que enrolava e fazia cordas: ‘Não, na quaresma não devemos fazer cordas, para não sermos como os judeus que preparavam as cordas para prenderem Nosso Senhor!…’
Recordações que ficam e que agora, passados tantos anos, evoco, não sei como nem porquê. As noites da Confissões recordo-as também, e havia dias e horas marcadas, para os homens, para as mulheres e para as crianças.
Recordo aquela sensibilidade pelo pecado? Seria tudo pecado? Ou não seria antes aquela delicadeza de consciência de se perceber, que o segredo da vida cristã era corresponder com amor ao amor de Nosso Senhor? Tantos anos depois numa já relativamente longa carreira académica e actividade pastoral, preciso de voltar ao início, aos tempos simples, que não ingénuos, em que se via o mundo e a vida com outro olhar mais puro e transparente. Voltar atrás? Não é possível. A vida é uma caminhada sempre para a frente, já o dizia S. Paulo, e S. Gregório de Nissa via o homem como aquele que percorre o caminho real da liberdade, com o olhar contemplativo no horizonte distante e infinito do Mistério de Deus, o Futuro Absoluto, diria K. Rahner. Voltar para trás ou olhar para trás é estar preso do passado, e isso é o pecado, que nos impede de sermos livres. Por isso é necessário proceder ao desnudamento, ao despojamento de si, e é esse o caminho do recolhimento, do silêncio, da contenção.
A Quaresma é este tempo providencial para uma paragem, para a escuta mais atenta da Palavra que convida à conversão, à mudança de vida, porque assim não é possível continuarmos. Na antiguidade, os que se preparavam para o baptismo passavam pelos escrutínios, momentos de prova e de discernimento, para verificar a autenticidade da conversão, da morte aos ídolos e à mentalidade do mundo. O verdadeiro Deus não pode ser Senhor dos corações que estiverem povoados dos apegos ao mundo, ao homem velho!…
Na vivência da Quaresma concentra-se o mais importante da espiritualidade cristã, que comporta a renúncia ao pecado, a Satanás e às suas seduções, aos grandes ídolos do ter, do poder e do prazer, como condição para o seguimento de Jesus Cristo, e configuração com Ele, seguindo os seus passos, na sua condição de pobre, de obediente e de casto, os clássicos conselhos evangélicos, pilares do único caminho que a todos é proposto, como caminho de perfeição: "se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, vem e segue-me…". Esta é uma Palavra que é dirigida a todos nós, mas que representa um paradoxo e um escândalo para a mentalidade mundana, para a cultura da Nova Era, essa religiosidade do egoísmo e do narcisismo pós-modernos.
Como seria bom que todos os católicos acolhessem o convite da Igreja à vivência em profundidade do espírito da Quaresma, cultivando um ambiente de silêncio e de recolhimento, desligando os aparelhos de rádio ou de televisão, se não todos os dias, pelo menos nos dias tradicionais de jejum e de abstinência: as quartas, as sextas e os sábados, e praticando mais intensamente a esmola, na partilha dos bens pelos pobres. Quem fuma, que o deixe de fazer e dê aos pobres o dinheiro que não queima; quem bebe, que se domine, e dê aos pobres o dinheiro que não gasta; quem se debate com a anarquia das paixões, que procure conter-se, porque por tudo isto é que o Senhor se deixou crucificar por cada um de nós, para que o homem, santificado no seu corpo, seja o lugar da sua habitação.
Na sua Mensagem para esta Quaresma, João Paulo II convida-nos à partilha, ao desprendimento e ao desapego a respeito do dinheiro, essa ganância que é a raiz de todos os males; a acolher e a testemunhar o Evangelho da Caridade. Uma mensagem que a nenhum de nós deveria deixar indiferente.

 

José Jacinto Ferreira de Farias, scj
Joseffarias@netcabo.pt