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Na minha última ida ao médico, este dizia-me que não estava de acordo com o uso da expressão “distanciamento social”. Mesmo no meio de uma pandemia, nós continuamos a ter uma grande necessidade de contacto com pessoas. Impedir esta proximidade acarretará consequências que serão igualmente graves e nefastas. Outra coisa distinta já seria o distanciamento físico, que se apresenta como uma medida obrigatória para evitar o contágio de um vírus que é altamente infeccioso.

Neste sentido, é muito curioso que o papa Francisco, quando fala da ausência duma consciência clara dos reais problemas dos pobres e excluídos, diga que isso se deve, «em parte, ao facto de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localizados longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contacto directo com os seus problemas. Vivem e reflectem a partir da comodidade dum desenvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial. Esta falta de contacto físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a ignorar parte da realidade em análises tendenciosas» (LS 49).

Ainda que o combate ao Covid-19 nos exija o necessário distanciamento, já nos apercebemos como isso é difícil e custoso, tão difícil e custoso que parece “contra natura”. Precisamos de escutar, olhar, falar e tocar uns nos outros. Precisamos de conviver uns com os outros, porque isso nos traz saúde e bem-estar. Quando não vivemos encapsulados, temos uma maior consciência da própria realidade, com os seus dramas e dificuldades, mas também uma maior sensibilidade à dor e sofrimento dos outros.

Pelo contrário, quando nos fechamos e afastamos, começamos a definhar, mesmo pensando que estamos protegidos. Do ponto de vista ecológico, quando nos encerramos no escritório e perdemos a noção da realidade, acabamos por não tomar boas decisões nem adoptar as medidas mais equilibradas e sensatas. É perigoso tomar decisões a partir dum oásis, quando muita gente vive num deserto. A tão propalada “aporofobia” tem, sem dúvida, grandes implicações na hora de tomar as decisões justas e adequadas para os problemas que enfrenta o planeta. E o simples facto de a desigualdade social ter crescido nos últimos tempos deveria ser suficiente para nos causar a sensação de que algo não está bem em tudo isto. E o Covid-19, por muito que queiramos convertê-lo em bode expiatório, não explica nem justifica todos os males do nosso mundo.

Em suma, nada melhor que as palavras do papa Francisco para concluir: «não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres» (LS 49).

José Domingos Ferreira, scj