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Respiramos um ar cultural que olha com suspeita para tudo aquilo que cheira a limite ou barreira. Crescemos a pensar que os limites existem apenas para serem superados, como se fôssemos todos atletas numa prova de barreiras. Com uma frequência muito comercial, recordam-nos que o céu é o limite e dificilmente alguém se orgulhará de ir a menos de 120 km/h numa auto-estrada…

Não obstante, esta crise ecológica vem dizer-nos que o ser humano ultrapassou os limites que lhe foram impostos pelo Criador. Com efeito, quando aborda a questão da água, o papa Francisco afirma, alto e bom som, que «já se ultrapassaram certos limites máximos de exploração do Planeta» (LS 27). Na linha daquela ruptura primordial simbolizada no acto de comer o fruto proibido, esta parece ser uma acção repetida ao longo da história, uma vez que «cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites» (LS 105).

O ser humano descobre-se «incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos» (LS 11). Há no seu coração uma rebeldia, uma revolta e uma insatisfação que o conduz a atentar reiteradamente contra os desígnios do Criador. «O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. […] Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si» (LS 105). A espiritualidade cristã tem aqui uma tarefa laboriosa pela frente e a educação não pode esquecer este aspecto.

Precisamos de manter viva a consciência que a vida só é viável dentro de determinados parâmetros. Estamos submetidos a leis que não podem ser quebradas impunemente. As águas de qualquer rio só atingem a foz, porque as margens orientam e limitam o leito, garantindo que a sua água não se dispersa pelo caminho. Por isso, o ser humano só poderá guardar e cultivar a criação se respeitar esses ordenamentos intrínsecos. Na verdade, «como foi criado para amar, no meio dos seus limites germinam inevitavelmente gestos de generosidade, solidariedade e desvelo» (LS 58). Pelo contrário, quebrar os limites definidos previamente é uma hybris que necessitará de uma inevitável catarse, pois pelo meio haverá sempre uma catástrofe: Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nunca…

O papa Francisco afirma que «se torna indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a protecção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecnoeconómico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça» (LS 53). Como é importante saber até onde se pode ir!!!

José Domingos Ferreira, scj