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É bastante relevante que, ao falar pela primeira vez de ecologia integral, o papa Francisco evoque um religioso – São Francisco de Assis – como «o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade». Neste santo medieval, nota-se «até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior» (LS 10).

A Vida Consagrada possui um forte dinamismo interior para assumir o desafio ecológico de forma plena e audaz. Ela pode ser uma fonte positiva de renovação, inspiração e discernimento para todos aqueles crentes que buscam maneiras sustentáveis de viver. Com efeito, o crescente despertar da sociedade face à degradação ambiental constitui uma oportunidade para os consagrados e consagradas recorrerem à sua tradição secular e apresentarem uma proposta renovada e actual. Talvez lhe falte apenas definir como contribuir para a consciencialização dos diversos problemas ecológicos e como conduzir a uma mudança de mentalidade e de comportamento.

Laudato si’ reivindica com urgência uma alternativa contracultural, mesmo quando reconhece que «o paradigma tecnocrático tornou-se tão dominante que é muito difícil prescindir dos seus recursos, e mais difícil ainda é utilizar os seus recursos sem ser dominados pela sua lógica» (LS 108). Este paradigma tecnocrático é tão forte que se tornou «anticultural a escolha dum estilo de vida, cujos objectivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador» (LS 108). É no quadro deste esforço contracorrente que a Vida Consagrada pode exercer uma interessante função profética.

Esta proposta alternativa implica trilhar os caminhos duma «corajosa revolução cultural» (LS 114), já que «uma conversão ecológica global requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades» (LS 5). Esta conversão ecológica não acontecerá de forma automática, pois converter-se, em linguagem bíblica, significa mudar de olhar, modificar a perspectiva, o que implica tempo e paciência, duas dimensões bastante instáveis nos nossos dias.

O contributo da Vida Consagrada passa por mostrar que são possíveis formas de vida que protejam o planeta. Os homens e mulheres especialmente consagrados podem dar corpo a maneiras de viver que respeitem a criação, constituindo-se em líderes e referências na definição de um novo estilo de vida, mais sustentável e reverente. No entanto, isto só será possível se a própria Vida Consagrada souber assumir o conteúdo da Laudato si’ nas diferentes etapas da sua formação permanente e inicial. Não se recolhem frutos, se não houver quem antes semeie…

José Domingos Ferreira, scj