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Henri Nouwen (1932-1996) intuiu sabiamente que «orar é ficar na presença de Deus naquele ponto do nosso ser onde não há divisões nem distinções e onde somos totalmente unos em nós mesmos, com Deus, com os outros e com toda a criação». Esta sua perspectiva possibilita vincular a «ecologia integral» com a oração, ajudando-nos a reverdecer a maneira como rezamos e nos relacionamos com Deus.

A oração aparece como o âmbito onde podemos experimentar maximamente esta interconexão de todas as coisas entre si. Na verdade, «a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas» (LS 240). Jesus de Nazaré expressa esta mesma intuição, quando pedia aos seus seguidores que, «se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta» (Mt 5, 23-24).

Uma oração desligada da vida é um engano tremendo, uma vez que ela está chamada a ser essa instância onde toda a «trama de relações» (LS 240) que nos constitui se harmoniza e integra de um modo verdadeiramente unificado. De facto, «o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, sente que Deus é para ele todas as coisas» (LS 234). Esta é, aliás, «a espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade» (LS 240).

A oração surge também como o espaço privilegiado para viver aquelas virtudes chamadas «ecológicas» (LS 88). De facto, quando rezamos, podemos experimentar um profundo sentido de «gratidão e gratuidade», a partir do «reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai» (LS 220). Uma oração inflamada pelo entusiasmo, alegria e gratidão sobe até Deus de cada vez que nos descobrimos infinitamente amados por Ele.

Ao mesmo tempo, Jesus recordava que a oração cristã é, por sua natureza, sóbria, e convidava-nos a «não dizer muitas palavras, como os pagãos, porque pensam que serão atendidos por falarem muito» (Mt 6, 7). Precisamos de acreditar que é possível «encontrar satisfação na oração», sem ter de andar a «debicar aqui e ali, sempre à procura do que não se tem» (LS 223).

Os filhos de Deus dirigem-se-lhe de forma humilde, porque aprenderam a reconhecer a sua dependência original face ao Pai. «Não é fácil desenvolver uma humildade sadia e uma sobriedade feliz, se nos tornarmos autónomos, se excluímos Deus da nossa vida, fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa subjectividade que determina o que é bem e o que é mal» (LS 224). A oração aparece como remédio contra a perda do sentido da transcendência, porque nos recorda sempre que «a nossa vida depende de Deus» (LS 227).

José Domingos Ferreira, scj