29 de Novembro 2006: História da vida, histórias de vidas

Celebrar um aniversário, qualquer que ele seja, é fazer memória. É querer fazer presente algo que, por uma razão ou outra, positiva ou negativa, boa ou má, assume relevo na nossa vida.
Celebrar um aniversário é fazer história. É trazer o passado até ao presente. É a vontade de tentar perceber os inícios para entender o presente e projectar o futuro. Neste caso, queremos percorrer esse passado com olhos de presente, projectados bem para o futuro. Partimos com uma certeza bem grande: este percurso, o até aqui feito e o que há-de acontecer, é fruto da presença constante, paternal, bondosa e misericordiosa do Bom Deus em quem acreditamos. Por muitas voltas que possamos dar ao texto, esta casa existe, desde o seu início, por insondável desígnio de Deus. Que outro motivo podia estar na sua génese? Que outra força a poderia ter sustentado ao longo de anos e anos, no meio de tantas vicissitudes, dificuldades, obstáculos?
Se tempo tivéssemos, valia a pena regressar às origens, ir à procura da enorme dose de loucura que moveu os nossos predecessores a construir esta casa e a constituir esta Comunidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima. Não me parece que tenham feito exaustivos estudos de mercado, que tivessem olhado com cuidado as leis da oferta e da procura, que medissem bem a lei da concorrência. Não! Havia uma Missão a cumprir, uma Missão que vinha lá de trás, dos tempos em que um certo Leão Dehon teimou fundar uma Congregação, do tempo em que uma Província, a da Itália Setentrional, sentiu necessidade de se lançar em projectos missionários. Partiram para a construção desta casa, porque era absolutamente necessária para cimentar a Missão que se ia consolidando. Não fizeram demasiadas contas de mercearia, não avançaram apenas e só quando humanamente era aconselhável fazê-lo; fizeram-no profundamente convictos de ser obra de Deus. Lançaram-se na arrojada aventura, completamente confiados na Providência de Deus e na protecção maternal de Maria. E assim nasceu a obra. Dificuldades e peripécias, há muitas. E muitas estão registadas nas crónicas ou noutros textos que o passar dos tempos foi permitindo produzir.

A história desta casa é uma história de Vida e de vidas. Uma história de Bênção e de bênçãos. Quanta gente passou por esta casa? Quantas histórias para contar? Não é preciso um grande esforço para recordar: quantos confrades por aqui foram passando, quantos superiores, formadores, ecónomos, secretários, párocos, estudantes… Esta é uma obra mãe de muitas obras; é um projecto que deu origem a muitos projectos; é uma aventura que deu lugar a muitas aventuras.
Seria tarefa quase ciclópica tentar fazer memória de todos quantos puderam usufruir desta casa. Daqui saíram bispos, padres, irmãos. Por aqui passaram muitos confrades que, entretanto, deram outro rumo às suas vidas, sendo hoje cristãos empenhados nas suas vidas. Gente que, certamente, tem sempre uma qualquer recordação – esperamos que positiva – da passagem por esta casa.

Por aqui passaram funcionários, gente simples, que deram muito da sua vida em prol do bom funcionamento desta casa e do bem estar desta comunidade. Haverá forma de alguma vez agradecer tanta dedicação, tanta abnegação?
Quantos grupos terão passado por parte da casa que agora vemos desaparecer? Quanta gente não terá experimentado no cimo desta colina uma profunda experiência de encontro com o Criador?
De quantos cantos de júbilo, de lágrimas de alegria ou de tristeza não é esta casa testemunha? Quanta celebração, quanta festa, quanta alegria! Quanta reconciliação, quanta partilha, quanta amizade e solidariedade encontradas!

Algum dia havíamos parado verdadeiramente, a reflectir em tudo o que esta casa significa para tanta gente? Quantos novos projectos tiveram aqui os seus inícios? Porque não recordar que foi aqui que se assumiu a opção de partir para as Missões de Madagáscar ou mais recentemente para Angola? E não foi nesta casa que foram tomadas as grandes decisões dos Capítulos Provinciais? Não foram daqui enviados missionários que trabalham por esse mundo além?
Por tudo isto e muito mais, percebemos que o dia em que celebramos o aniversário da nossa casa é acima de tudo uma ocasião ímpar para um grande louvor ao Senhor.

E haveria mais, muito mais ainda para invocar e para juntar a este louvor que esta manhã queremos erguer ao nosso Deus. Quanta gente anónima foi passando por aqui, a pedir a reconciliação com Deus e com os irmãos, em busca da paz perdida, a desabafar, a partilhar angústias e desesperos… E poderemos esquecer a gente pobre que tantas vezes nos bateu à porta, em busca de pão, em busca duma réstia de esperança e de vida para uma vida sem sentido, sem sabor nem horizonte? E como não querer tornar presente o papel fundamental assumido por esta casa, no momento em que foi absolutamente indispensável abrir portas para acolher gente que chegava das antigas colónias, destroçada por uma vida que fora de sonho e que de repente se tornara de nada? Quanta angústia se tornou paz e esperança!
Pois é, como é bonita a história da nossa casa! E que responsabilidade ela nos lega! Estamos à altura da herança?

Não, não foram esquecidos! Seria possível esquecer os milhares e milhares de benfeitores que têm percorrido este caminho connosco? Quem são? Saberemos algum dia? Conhecemos alguns rostos. De outros conhecemos apenas as pobres palavras que conseguem gatafunhar. A outros, nem sequer isso conhecemos, porque não escrevem, ou porque não sabem ou porque já deixaram de saber ou de poder fazê-lo. Perderam, eventualmente, essas faculdades, mas não perderam o amor à casa e à causa. Muitos nem sequer imaginam onde fica Alfragide. Mas todos sabem que em Alfragide há uma casa que amam, há uma comunidade que estimam, há uma missão que os fascina. E têm consciência de que tudo isso existe também graças aos seus esforços, à sua partilha e à sua oração. Sentem-se, muitas vezes, gotas insignificantes do imenso oceano. Mas sabemos nós que é o conjunto das gotas insignificantes que torna realidade o grandioso e imponente mar. Por isso, agradecemos a todos os nossos amigos e benfeitores, todos os que ao longo da sua vida fizeram e fazem sacrifícios e esforços para ajudar a nossa obra a manter-se de pé. Que o Bom Deus, Senhor de todas as coisas, a todos abençoe e recompense!

Lugar incontornável na história da nossa casa é o que ocupa a “Voz Missionária”. Mais uma vez, se tempo tivéssemos, podíamos tentar passar as páginas dos seus já 128 números, onde iríamos encontrar verdadeiras pérolas da nossa história, verdadeiras histórias e exemplos de vida, que em muito nos ajudariam a perceber, sem dúvidas nem rodeios, que
estamos efectivamente perante uma obra de Deus e não apenas obra humana.

É destes traços que é feita a história desta casa que agora vemos renascer. Sejamos fiéis e dignos continuadores desta bela aventura sustentada na partilha e na solidariedade de tantos e tantas e na bênção paternal e providente do Deus que não falta.

| José Agostinho F. Sousa, scj |