Print Friendly, PDF & Email

Ontem na Sé do Funchal, D. Teodoro de Faria ordenou três sacerdotes madeirenses, entre eles o Pe. Nélio Luciano Vieira.
Nesta entrevista este dehoniano dá-nos a conhecer pormenores da sua caminhada vocacional, revela-nos a influência que a família teve na sua opção e refere o significado de ser sacerdote no início do século XXI.

— Como surgiu a sua vocação sacerdotal?
— No ano de 1986 fui convidado a ir ao Seminário pelo Padre Agostinho Pinto, na Escola Arendrup (Pereira – Santo da Serra). Nessa mesma altura fui também convidado por um outro padre, mas, desta vez, na catequese, pelos Salesianos.
Gostei da ideia de ser padre, mas como tinha duas propostas e o meu pai não estava muito de acordo, tive que ir ver primeiro para depois escolher. Naquela altura, fui primeiro ao Colégio Missionário e, desde logo, falaram-me das missões. Fiquei muito entusiasmado. Ouvi muitas histórias sobre as missões, sobre os riscos que os missionários corriam e isso agradava-me, sobretudo, pela aventura. Fiquei mais contente ainda quando me disseram que um dos primeiros missionários dehonianos era do Santo da Serra. Ao ouvir falar da história da vida dele em Moçambique no tempo da guerra quis logo ficar no Colégio Missionário, ser dehoniano.
Já estava convencido, já sabia para onde queria ir e o que fazer: ser missionário dehoniano, em Moçambique. E, assim aconteceu, entrei no Colégio Missionário no dia 7 de Outubro de 1989, acompanhado dos meus pais.

A importância da família

— Qual foi a importância da sua família nesta opção?
— A minha família foi muito importante porque eu sempre tive em consideração a opinião dos meus pais. Nem sempre fazia o que eles me pediam, mas a opinião deles era fundamental. Daí que ela tenha sido realmente importante. As pessoas que mais me marcaram foram a minha mãe e o meu avô, que já faleceu. Foram aqueles que sempre me deram mais força, mais me incentivaram e motivaram a não ter medo, a ter confiança em Deus, pois Ele é grande. Desde sempre fui muito desprendido da família e não tive grandes dificuldades em partir para Coimbra quando tinha ainda 15 anos.

O motivo de uma opção

— Que motivos o levaram a escolher a Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (dehonianos)?
— Se inicialmente era o fascínio das missões com as suas aventuras, hoje, ser dehoniano é estar disponível para ser cristão, ser religioso e ser padre. Ser dehoniano é ser uma testemunha viva do amor de Deus para os cristãos e não cristão. Ser dehoniano é poder viver em família, viver em comunidade. É realizar o projecto de Deus para todos os tempos, ser profeta do amor e servidor da reconciliação, tal como o disse Paulo VI.
Escolhi os dehonianos porque gosto da espiritualidade que propõe o Padre Dehon: “o importante não é fazer grandes coisas, mas à grande as pequenas coisas”. É esta simplicidade das palavras recheadas de sentido que me fazem dizer: quero viver este ideal. Foi neste ideal, rico de simplicidade, mas cheio de sentido, com o coração no centro que quis ser dehoniano, quis contemplar a espiritualidade do Coração de Jesus, da oblação, da entrega de toda a vida a Deus.

Ser padre no novo século

— Que significado tem para si ser sacerdote no início do século XXI?
— Acho que é o mesmo que há dois mil anos. Ser-se sacerdote hoje é tão exigente quanto o foi na Igreja primitiva. É verdade que hoje se fala de grandes desafios à Igreja, mas quando é que eles não existiram?
Ser sacerdote no século XXI é viver no tempo presente a proposta que Jesus fez. Não acho que seja mais difícil do que o era antes, ou que agora temos mais vantagens do que antes.
Ser sacerdote hoje é estar atento aos sinais dos tempos, estar atento aos que precisam da nossa ajuda, seja aqui mesmo ao lado nos meus vizinhos, seja naqueles que nunca ouviram falar da mensagem de Jesus. É ser sinal de amor, testemunha de uma verdade que dá sentido, dá paz, dá vida a cada pessoa. É estar atento, é anunciar o bem, mas também denunciar o mal, denunciar os erros, os exageros, os atropelos à dignidade dos seres humanos, é denunciar os crimes contra os cristãos em dificuldade. Ser padre é estar junto dos outros quando eles precisarem da nossa ajuda, da nossa companhia, do nosso amor, da nossa palavra amiga que nem sempre é aquela que mais queremos ouvir, mas é aquela que mais nos ajuda a dar a volta aos nossos problemas, a superar as nossas dificuldades, a levantar a cabeça com serenidade e sem ressentimentos.
Ser padre no século XXI é dar sentido à vida, em qualquer momento, em qualquer altura, é procurar ajudar quem não descobre o sentido para a sua própria vida, é dar espaço a Deus para que Ele fale aos homens, para que Ele testemunhe a alegria, a verdade de Deus, a vontade de ser feliz.

— E concluindo…
— Ser padre no século XXI é ser radical, é dar testemunho do valor da mensagem do amor do projecto de Deus para cada um de nós, é dar esperança, é apresentar caminhos novos, horizontes largos e abertos, é colaborar com todas as pessoas para que o mundo onde nós vivemos seja cada vez mais humano, mais de Deus, é ser fonte de vida, tal como a água que brota do meio das rochas de forma límpida e refrescante. É poder experimentar no presente a vida eterna, a vida depois da morte, é dar paz e tranquilidade a quem mais precisa.

Mensagem aos jovens

— Que mensagem dirige aos jovens?
— Aos jovens só podemos dizer como João Paulo II, não tenham medo de ser jovens, com todas as exigências que esta afirmação implica. Para se ser jovem a sério temos de aprender a viver como Jesus na radicalidade dos nossos gestos, das nossas palavras das nossas opções. Ser jovem é aceitar crescer em nós um ideal: o sacerdócio, o matrimónio, o que for. O importante é sejamos coerentes com as nossas opções, com as nossas decisões.
Ser jovem é ser forte, ser capaz de aprender a viver de forma responsável e criativa, honesta e inovadora.

 

Caminhada vocacional

O Pe. Nélio Luciano Baptista Vieira nasceu na paróquia de Santo António da Serra no dia 12 de Outubro de 1976.
Fez a Profissão Religiosa em Aveiro no dia 21 de Setembro de 1996 e Profissão Perpétua em Lisboa no dia 15 de Setembro de 2002.
A Ordenação Diaconal teve lugar na Sé do Funchal a 26 de Julho de 2003.
A sua Missa Nova foi celebrada igreja paroquial de Santo António da Serra, hoje, com início às 18 horas.

| Sílvio Mendes, in Jornal da Madeira, 25.07.2004 |