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O ser humano «é parte do mundo com o dever de cultivar as próprias capacidades para o proteger e desenvolver as suas potencialidades» (LS 78). Esta afirmação do papa Francisco vem reavivar algo que poderia estar coberto pela poeira no baú da memória: «somos parte» da criação.

Nós não somos um corpo estranho nem completamente distinto da obra da criação. Nós também somos criaturas, o que quer dizer que «somos terra (cf. Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do Planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos» (LS 2). Precisamos da natureza para viver e estamos dependentes dela, mas isto não abarca a totalidade da questão. Com efeito, o homem «é espírito e vontade, mas é também natureza» (LS 6). Esta, sim, é uma verdade basilar que não podemos esquecer, pois «a criação resulta comprometida onde nós mesmos somos a sua última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para nós mesmos» (LS 6). Esta verdade ajuda a explicar porque «um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus» (LS 8).

Crescer na consciência que «somos parte» da natureza estimula o sentido de pertença. Não somos extraterrestres, mas também não somos parasitas. Nós só temos este planeta e, se não cuidamos dele, a vida rapidamente se tornará impossível. Este planeta é a nossa casa, é aqui que pertencemos e, de alguma maneira, nos reconhecemos como seres humanos. Neste sentido, é preciso matizar bem o que se quer dizer, quando afirmamos que estamos de passagem por este mundo e que não temos aqui a nossa morada permanente. O risco de uma espiritualização excessiva que anule a nossa dimensão criatural é real e está bem presente…

«Ser parte» não se relaciona apenas com pertencer, mas também com partilhar. À luz do que escrevo, partilhar não é um acto de condescendência ou benevolência de quem dá alguma coisa. É antes o reconhecimento que a outra criatura tem necessidades e direitos e que eu não posso açambarcar aquilo que lhe pertence. A partilha torna-se, a este nível, uma questão de justiça, de dar a cada criatura aquilo que lhe é devido.

Por último, «ser parte» tem algo a ver com participar. Trata-se de assumir os deveres e responsabilidades que temos para com a criação. O cuidado da natureza que nos é pedido actualmente não se justifica pelo medo de uma catástrofe apocalíptica. Cuidar é a nossa forma de participar activamente enquanto parte da criação. Deus criou-nos para sermos os jardineiros da natureza: esta é a nossa vocação.

Em suma, é esta consciência que a humanidade é uma parte da criação, com deveres e responsabilidades para com a totalidade do criado, que leva o papa Francisco a falar numa «casa comum» (LS 1). Só é possível que esta seja a casa de todas as criaturas, se nós nunca ousarmos apoderar-nos dos vários espaços que a compõem…

José Domingos Ferreira, scj