Gosto muito daquela frase de Bento XVI que o papa Francisco retoma na Laudato si’: «os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos» (LS 217). É uma afirmação que nos pode ajudar a compreender melhor estes tempos de “contaminação global” que estamos a viver.

Se é verdade que a natureza não consegue escapar à acção destruidora do ser humano, não é menos verdade que o próprio coração humano se encontra gravemente doente. Se a humanidade se encontra actualmente vergada por um vírus, que ceifa todas as vidas que pode, não é menos verdade que muitas mais vidas eram ceifadas em nome do progresso, do lucro, do enriquecimento a qualquer custo. Não é apenas o exterior que está sujo, é também o interior que está contaminado. Por isso, esta frase assenta que nem uma luva e denuncia esta contaminação que respiramos. Senão vejamos: ligamos a televisão e o que vemos? Polémicas ruidosas no desporto, gritarias ensurdecedoras na política, conflitos barulhentos espalhados pelo mundo. Há uma poeira permanentemente levantada que nos impede de respirar ar puro e fresco, mas que nos impossibilita sobretudo de compreender o que se passa à nossa volta. Na verdade, pergunto-me se é possível manter a saúde mental, consumindo dois ou três noticiários por dia? É possível manter-se lúcido com aqueles programas de comentadores desportivos, que roçam inclusivamente o limite da boa educação e da decência? O tempo passa e eu convenço-me que não…

Lamentavelmente, a informação tornou-se entretenimento e, portanto, vale tudo para prender a nossa atenção. Perdemos o silêncio e a concentração, mas deixamos entrar a dispersão e a ansiedade. Perdemos a compaixão e a solidariedade, mas deixamos entrar a indiferença e o pensamento único. Hoje consumimos notícias, inebriamo-nos de irrelevâncias e anestesiamo-nos perante o sofrimento real de tantos seres humanos. A julgar pela facilidade com que olhamos para a televisão e para o telemóvel ao mesmo tempo, parece que só vale aquilo que causa impacto. A julgar pelo modo quase frenético com que mudamos de canal, parece que só conta aquilo que nos agrada e que, portanto, não nos incomoda nem perturba por aí além.

A este propósito, é muito curioso e merece uma reflexão aprofundada o facto de que, «nos primórdios, a tradição monástica favorecia de certo modo a fuga do mundo, procurando afastar-se da decadência urbana. Por isso, os monges buscavam o deserto, convencidos de que fosse o lugar adequado para reconhecer a presença de Deus» (LS 126). Na minha opinião, não se trata de voltar a propor uma fuga do mundo, mas penso que precisamos urgentemente de desenvolver um distanciamento crítico, relativamente à mentalidade dominante e a este estado de coisas, que não tendo grande conteúdo nem profundidade, opta por aumentar os decibéis, a ponto de não possibilitar nenhuma outra voz.

José Domingos Ferreira, scj