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A parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-44) é um texto enérgico e forte, com passagens de grande agressividade e violência. Jesus mostra-se muito corajoso e audaz, ao contá-la diante dos sumos-sacerdotes e dos anciãos do povo, directamente visados na narrativa.

A parábola fala-nos de maus tratos, apedrejamentos e mortes. Situa-nos perante um cenário de degradação humana e ética, que descamba em perversão. Na base desta degradação, está um problema de ecologia humana. É que, quando não aprendemos a respeitar a nossa natureza humana, com as suas leis e ritmos, não somos capazes de promover a ecologia natural e a ecologia social. Se não aprendemos a respeitar-nos a nós próprios, não conseguiremos respeitar a natureza nem os outros. É fundamental ter isto em conta, numa altura em que a ecologia está na moda. Fala-se muito de ecologia ambiental, mas todos os nossos esforços estarão condenados ao fracasso, se não pusermos o mesmo empenho em defender uma ecologia humana.

Uma árvore não dá frutos para si própria. Os frutos destinam-se sempre aos outros. Por conseguinte, não dar fruto é fechar-se em si mesmo, é enredar-se numa teia de egoísmo, é viver sem sonhar um mundo melhor, é perder-se no deserto da inutilidade. Numa semana em que tanto se falou do desperdício dos alimentos, não dar fruto é também uma forma de desperdício. Ninguém vive para si mesmo. Todos temos uma missão a realizar neste mundo. Recusar-se a dar fruto é defraudar as expectativas que Deus tem para nós.

Os vinhateiros recusam-se a dar fruto e assumem o controlo da vinha, mesmo que isso implique matar o filho do proprietário. Atenção que isto não é uma história de ficção! A crise ecológica, que será mais grave e mais agressiva que o Covid-19, e com mais efeitos sobre a nossa saúde, é a prova inequívoca de que o ser humano quis ocupar o lugar do Criador e à revelia assumir o controlo da terra. O mais grave é que tem governado o planeta de forma despótica, autoritária e irresponsável. O mais grave é que, para assumir o controlo de determinadas regiões, se atacam os seus habitantes, forçando-os a fugir. A crise ecológica é também um sinal do enorme desrespeito pelo bem comum, pela vida humana e pelas gerações futuras.

Jesus é muito claro na conclusão do texto: «por isso vos digo: ser-vos-á tirado o reino de Deus e será dado a um povo que produz os seus frutos». Se não formos capazes de cuidar da vinha, que nos foi oferecida como espaço para aprendermos a ser livres e felizes, então ficaremos para a história como a geração mais consumista e depredadora. Se não formos capazes de deixar um mundo habitável aos que virão depois de nós, ficaremos para a história como o símbolo do que a humanidade teve de mais irresponsável e destrutivo.

José Domingos Ferreira, scj