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O papa Francisco abre a sua nova encíclica a falar do «sonho de uma sociedade fraterna» (FT 4). Ao longo do texto, evocará este «novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limita a palavras» (FT 6). Lembrará «como é importante sonhar juntos! Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos» (FT 8).

Sonhar é importante, pois precisamos de ideais, precisamos de mobilizar a imaginação, precisamos de começar a viver dentro de nós aquilo que queremos que se torne realidade. O sonho tem tanto de insuficiente como de imprescindível. Ele tem o poder de unir a razão e o coração; consegue aproximar os pensamentos, os afectos e os ideais entre si. Se o sonho é verdadeiramente capaz de mobilizar a pessoa toda, como seria o nosso mundo se todos nós tivéssemos um sonho comum, um sonho partilhado, um sonho único?

O poeta António Gedeão ensinou-nos

Que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.

O sonho aglutina as nossas aspirações mais profundas e, de alguma forma, dá corpo a esses anseios interiores. A esperança é uma criança sonhadora, pelo que sem sonhos, não há esperança. O mesmo Papa, que fala em sonhos de uma fraternidade inclusiva, denuncia também que há outros sonhos que se desfizeram em pedaços (FT 10) e alerta que, nos dias de hoje, «o sonho de construirmos juntos a justiça e a paz parece uma utopia doutros tempos» (FT 30). Será que deixamos de sonhar, porque simplesmente perdemos a esperança? Será que deixamos de sonhar, porque a desilusão e o desânimo se tornaram mais fortes? Será que deixar de sonhar significa que desistimos da vida?

O desafio que nos lança esta nova encíclica do papa Francisco é o de sonharmos com um mundo de proximidade, de diálogo, de paz, de justiça, de encontro com todos os seres humanos, nossos irmãos. A nossa vida tornar-se-ia muito mais serena, mais confiada e mais alegre. O nosso dia-a-dia seria menos competitivo e menos acelerado. Poderíamos então atirar para bem longe de nós a desconfiança permanente e a ansiedade doentia.

José Domingos Ferreira, scj