Para falar do Pe. Manuel, terei inevitavelmente de falar de mim, o que não me agrada particularmente. Mas lá vai.
A nossa vida cruzou-se em 1947, tinha ele 16 anos e eu 11. Eu vivia a 100 metros de Seminário diocesano, mas nunca me tinha passado pela cabeça entrar um dia num seminário. Todavia, um dia pediram-me para pensar nisso e falaram-me da possibilidade de ir para um Seminário no Continente.
Meus pais tinham vindo viver para o Funchal, no intuito de dar estudos aos filhos, aceitaram com alguma reserva essa possibilidade. Mas eu queria e eles não quiseram contrariar-me. Entretanto, já tratavam do assunto, quando a minha mãe soube que tinham chegado à Madeira…
Foi procurá-los na Esc. de Artes e Ofícios, onde se tinham instalado provisoriamente. Não fui o primeiro. Minha mãe ficou a saber que não estava nada decidido, mas que, entretanto, podia deixar o nome. E deram-me o número 5. Dos outros que já tinham batido à porta, 3 eram do Santo da Serra. Queriam ser missionários, mas não havia na Madeira um Seminário que os recebesse e lhes assegurasse essa formação. O Manuel G. esperava há anos. Já tinha 16. Outro, o Manuel Martins, M. tinha 15. Outro era um poço mais novo.
Soube mais tarde, que apareceram mais alguns pretendentes. E os Padres Colombo e Canova não sabiam que fazer à vida. Queriam abrir um Seminário, mas não tinham um chavo. E, além disso, mal conheciam a terra e os costumes e, sobretudo, a língua. O projecto inicial consistia em, durante alguns anos, preparar o terreno.
Mas aqueles homens de fé não souberam esperar. Raciocinaram assim: se Deus nos envia pretendentes, isso é um sinal: Deus quer que avancemos.
E assim, pouco mais de meio ano após a sua chegada a Portugal e à Madeira., abriram o Colégio Missionário.
O futuro Pe. Manuel mostrou-se desde logo um jovem reservado, mas extremamente responsável e convicto. Impunha respeito aos mais novos. Era um exemplo.
Passados 5 anos foi o grupo para Coimbra abrir um novo Seminário. Fomos, passados três anos, para a Itália completar a formação.
O Pe. Manuel sentiu depois alguns problemas de saúde que dificultavam o seu avanço nos estudos. Aconselharam-lhe uma interrupção. Foi enviado para Moçambique, onde ainda mais se apaixonou pelas Missões. Quando regressou, veio estudar Teologia, aqui no Seminário Maior do Funchal.
Eu já era Padre, quando finalmente ele se ordenou e teve o gesto amigo de me convidar
para fazer o sermão da Missa Nova.
Veio, depois, o envio para as Missões. Foram quarenta anos de vida missionária e de um testemunho de coerência de vida, de dedicação abnegada, de entrega total sobretudo à formação de futuros dehonianos, como professor e director espiritual.
Quando há quase dois anos fui a Moçambique orientar o retiro anual dos dehonianos daquela nossa Província, lá estava o Pe. Manuel, ainda agarrado ao seu vício inocente – o cigarrito (que dizem ser quase uma necessidade naqueles climas…) – acusando já o peso da idade e talvez da doença que o minava, mas entregue de alma e coração à sua missão de formador (professor, director espiritual, confessor) no nosso Seminário do Sococo.
Mas destes e doutros pormenores melhor falará o Pe. Élio no seu belo depoimento. Para mim pessoalmente fica o testemunho de um homem de fé, sempre igual a si mesmo, discreto, sereno, piedoso e coerente, em suma, um verdadeiro Sacerdote do Coração de Jesus.
Nas últimas vezes que o visitei no hospital, eu dizia-lhe simplesmente “oblação” e acrescentava, tocando na cama: “e isto é o altar”. Ele, com grande esforço, esboçava um sorriso e acenava que sim com a cabeça.
Pe. Manuel, tu que já te encontraste face a face com o Senhor da tua vida, fala-Lhe de nós, da tua família, dos teus confrades de Moçambique e de Portugal. Fala-Lhe dos seminaristas que acompanhavas de perto na tua terra de adopção e também dos que nesta casa, tal como tu e eu um dia, encetam os primeiros passos incertos e hesitantes, rumo a um grande ideal.

| Fernando Ribeiro, scj |