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A castidade consagrada compromete toda a energia afectiva da pessoa no respeito e na reverência prestadas a Deus criador e a Jesus Cristo. De facto, Jesus nasceu rodeado de animais domésticos e cresceu num ambiente rural. Falou do Pai como «Senhor do céu e da terra» e serviu-se das coisas criadas para ilustrar o Reino. Contou parábolas sobre a semente e o trigo, os pássaros que voam e as flores nos campos. Rezou nas colinas e no cimo da montanha, no deserto e no Horto do Getsémani. Passeou nas margens do rio Jordão e nas margens do mar da Galileia.

É a este Jesus terreno que a castidade nos une de modo irresistível, levando-nos a amar o que ele ama, a cuidar o que ele cuida, a ver as coisas e as pessoas com o seu olhar. Esta castidade torna-nos mais aptos para contemplar o mundo natural, para o descobrir carregado da grandeza de Deus e, desta forma, receber o dom do autêntico cuidado da Igreja, do mundo e da criação. Somos parte do todo e identificamo-nos mais a Cristo, quando respeitamos a terra e quantos a habitam; quando os nossos corações se rompem diante daquilo que afecta e move a compaixão de Deus, que escuta tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.

A castidade consagrada toca o nosso corpo em todas as dimensões que o constituem, como a sexualidade, as emoções, os sentimentos e até a própria vulnerabilidade. Ela expressa-se sob a forma de respeito na maneira como acolhemos e integramos a totalidade do nosso ser, para nos enamorarmos apaixonada e completamente por Cristo.

A maneira como imaginamos e tratamos o nosso corpo joga um papel vital em como compreendemos e tratamos o mundo. Celibato, encarnação e ecologia caminham a par e reclamam a superação daquele dualismo antropológico, que separava a sexualidade da teologia e da espiritualidade. A nossa sexualidade humana é um dom de Deus e uma dimensão fundamental de quem somos, pelo que devolver este dom a Deus na castidade consagrada torna-nos melhores amantes. Não estamos longe do pensamento do Papa, que escreve que «o nosso corpo nos põe em relação directa com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum […]. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana» (LS 155).

Precisamos de aprofundar a consciência que tudo, na natureza, tem um corpo e assim desenvolver uma relação mais sadia com o nosso corpo, o das outras criaturas e o da própria terra. Não podemos esquecer que é através do material que podemos alcançar a presença viva de Deus. É através da nossa castidade consagrada que podemos canalizar a energia física da procriação em direcção a uma força vital e criativa, que entra em comunhão com tudo o que existe e com o Santo.

José Domingos Ferreira, scj