Manuel, agora sim, podes fumar um cigarrinho, daqueles bons, juntamente com o Pai, com Jesus e José. Entraste na glória!
Cada dia o Manuel tinha no bolso um pacotinho de cigarros, daqueles baratinhos que até cheiravam mal e pareciam sempre velhos e vinha sentar-se em casa e tomava com gosto um cafezinho.
Não sei quantos cafés por dia, mas nunca, que eu saiba, recusou esta inocente e simpática prática de boas maneiras de estar com os confrades. E quando ia ao seminário Santo Agostinho… a primeira coisa, antes da confissão ou da conversa espiritual, era um bom cafezinho tomado juntos.
Com Manuel iniciei a minha caminhada religiosa em Albissola Superiore (Savona – Itália) no ano de 1965, quando, com mais 5 confrades ele veio de Portugal e iniciámos o ano canónico de Noviciado. Ele tinha sete anos mais do que nós que vínhamos dos seminários menores de Trento, Albino e Pagliare. E havia também uns doze noviços irmãos: ao todo éramos 53 noviços. O nosso mestre foi o santo padre Del Fabbro. Noviciado! Tempo de oração, de trabalhos duros no campo (ele era de família camponesa), preparação da horta e gosto pelas flores de variadíssimas formas e cores: ele encontrava-as, transplantava-as e um bom dia tu vias lá no altar uma flor bonitíssima assinada Manuel; não sei onde ia buscar. O Noviciado era silêncio, era conferências, era penitência, era alegria extrema e vivacidade jovem no viver o dia a dia. Lembro as ladainhas do Coração de Jesus no grande corredor do refeitório e, depois, o exame particular, e nós todos numa bicha que se desenrolava recolhida nos quatro cantos. No fim, estava o padre superior da casa que, sendo construtor, por vezes parava no meio, olhava para o alto e suspirava: certamente, dizíamos nós, amanhã haverá alguma coisa a mais que muda. E ríamos entre nós.
Vassourávamos debaixo das videiras, espalhávamos o saibro grosso no pátio e ao longo das estradas do jardim, regávamos a horta: nós éramos para os trabalhos pesados e na horta ou na preparação do terreno. E devíamos dizer cada cinco minutos uma jaculatória…
De facto trabalhávamos em silêncio.
E em Monza e depois em Bologna: tu eras especialista no trabalho de corte das sebes que levavam à gruta: cada 15 dias bem cortadinhas, bem direitinhas, nem muito nem pouco, com aquelas grandes tesouras, te lembras? E a gruta de Lourdes, no jardim do "STUDENTATO DELLE MISSIONI" tinha as melhores flores da cidade… e a água a correr e, nas tardinhas, aquelas lâmpadas que iluminavam a estátua de Nossa Senhora: era a luz que ficava sempre acesa porque era para lembrar os missionários e as missões onde se encontravam os nossos padres e onde nós queríamos ir um dia.

Manuel de poucas palavras, Manuel professor do Latim (quantos alunos passaram pelas tuas mãos!), Manuel especialista do jardim, Manuel barbeiro de milhares de cabeças de frades, Manuel que nunca vi correr mas sempre e só caminhar, Manuel do italiano perfeito, Manuel do café, Manuel do prolongado silêncio na Igreja em oração, Manuel que nunca criou problemas de obediência aos seus superiores, Manuel confessor e director espiritual de padres, seminaristas e cristãos das paróquias de Quelimane (volta a confessar porque os confessores agora desapareceram!), Manuel do rosto bondoso e manso: nunca te vi alterado ou raivoso no meio dos teus seminaristas que, nos últimos tempos, procuravas alimentar, Manuel da velocidade do carro ao máximo de 35/40 Km por hora: quanta paciência transpiravas!
Estavas aí com os teus seminaristas. Tu estavas em casa e todos sabiam que o Manuel estava lá. Homem humilde e pobre sempre com aquelas sandálias velhas, aquele passo lento, aquele sorriso nos lábios. Homem calmo.
Manuel, homem da beleza da casa: flores exóticas, sementes variadíssimas, em qualquer ângulo da casa havia uma novidade.
Agora estás com o Pai, com José, com Maria, com os teus santos pais e confrades amigos. Sinto uma profunda saudade de paraíso.
Deixas a nós teus confrades a fotografia de um homem religioso sereno, contente da sua escolha, carregado de fé e de caridade; um companheiro com o qual é fácil falar e descansar. Soubeste levar contigo o sereno acolhimento da tua doença. Escreveste-me ao partir para Portugal: «Estou nas mãos dos médicos mas, felizmente, também nas de Deus. Cada um de nós enche um pequeno buraco do Reino de Deus: que eu possa encher bem o meu. Tenho saudade de voltar, mas Deus sabe».
Um grande abraço amigo para ti e… todos.
Manuel, um homem que gostava de desaparecer mas que sentias a sua presença… amiga… simpática.

| Elio Greselin, scj – Superior Provincial de Moçambique |