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A parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) constitui uma excelente oportunidade para nos despertar da ruinosa desigualdade que fere o nosso planeta. Na verdade, podemos estar a «viver e a reflectir a partir da comodidade dum desenvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial» (LS 49).

Se os ricos do nosso mundo são um grupo pequeno e cada vez mais restrito, isso significa também que os excluídos «são a maioria do Planeta, milhares de milhões de pessoas» (LS 49). Trata-se, portanto, de uma tremenda manifestação de injustiça social, que permite pensar o pior dos cenários para o futuro que aí vem.

O texto evangélico diz que «havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas». Deveria impressionar-nos em Jesus esta sua capacidade de contar histórias com a marca de perenidade e permanente actualidade. Escutar esta parábola e vê-la reproduzida na carne de tantos homens e mulheres de hoje não é muito difícil e não é ficção.

De facto, aquele pobre, chamado Lázaro, representa todos aqueles imigrantes que, tentando atravessar o Mediterrâneo, morrem às portas fechadas de uma Europa que, duma maneira ou doutra, lhes recusa a entrada. Aquele pobre Lázaro ao portão do rico representa uma sociedade que é cada vez mais desigual na distribuição dos seus recursos: uns quantos consomem e esbanjam aqueles bens que fazem falta a muita gente e que certamente lhes aliviariam no seu sofrimento e angústia permanentes. Isto é um escândalo na sociedade do descartável, do usa e deita fora, do prazo de validade curto e das grandes lixeiras.

A este nível, do tempo de Jesus até aos nossos dias, não avançamos muito, o que merece desde logo uma séria reflexão sobre a nossa suposta modernidade. Com efeito, o papa Francisco denuncia que, no modelo actual, há «uma minoria que se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o Planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre» (LS 50).

Em suma, «é preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença» (LS 52). O mais certo, no entanto, é que, se não damos ouvidos a Moisés nem aos Profetas de ontem e de hoje, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não nos convenceremos. Será uma questão de dureza de coração?

José Domingos Ferreira, scj