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«A terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos». Esta é, aliás, «uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos» (LS 93).

O papa Francisco recorda que o destino universal dos bens se sobrepõe à propriedade privada e que «o direito universal ao seu uso é uma regra de ouro do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social» (LS 93). A verdade é que Deus deu a terra a todo o género humano, para que todos – sem exclusão nem privilégio de ninguém – possam dela retirar o seu sustento.

Se os bens da terra se destinam a todos, isto significa que «o rico e o pobre têm igual dignidade, porque quem fez a ambos foi o Senhor» (LS 94). Não se pode aceitar, portanto, que a maior parte da riqueza mundial esteja nas mãos de uma pequena parte da população, enquanto a larga maioria da humanidade sofre imensas privações, que lhe negam a possibilidade de uma vida feliz e esperançada. Não podemos esquecer que «o meio ambiente é um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos» (LS 95).

Neste sentido, ainda que recorrentemente apontemos o dedo ao consumismo, o grande problema radica numa produção excessiva, que serve para manter em perpétuo crescimento a economia. É ela quem dá o suporte à «ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia». É urgente tomar consciência, no entanto, que a disponibilidade infinita dos bens do Planeta é uma mentira: é falso que exista «uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos» (LS 106). Esta produção excessiva tem levado as pessoas a adquirir uma quantidade excessiva de coisas, mesmo se não têm tempo para desfrutar delas ou se têm que trabalhar demasiado para pagá-las. Ela é também responsável por criar tantas necessidades artificiais, a ponto de nos estarmos a tornar todos nuns pobres necessitados, que confundiram felicidade com bem-estar.

A opção preferencial pelos mais pobres «implica tirar as consequências do destino comum dos bens da terra, mas […] exige acima de tudo contemplar a imensa dignidade do pobre à luz das mais profundas convicções de fé» (LS 158). Por isso, «não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar» (LS 162).

 

José Domingos Ferreira, scj