Escrever sobre a sobriedade numa altura tão dada a excessos como é o período natalício poderá parecer algo descontextualizado e extravagante. Torna-me também num desmancha-prazeres. Além disso, no nosso país, a palavra “austeridade” adquiriu uma conotação negativa, pelo menos em contexto político-partidário, e tornou-se inclusivamente uma arma de arremesso. A sobriedade soa a coisa de pobre, quase como uma via de racionalização da difícil e precária condição que se experimenta no dia-a-dia.

Curiosamente, chama-me a atenção que o papa Francisco, na encíclica Laudato si’, tenha utilizado a palavra sobriedade por oito vezes, sendo que cinco delas aparecem nos números 222 a 225, dentro de uma secção que leva o título “alegria e paz”. Mais curioso ainda é que por duas vezes o Papa use a expressão “sobriedade feliz”, afirmando deste modo que «a sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas» (LS 223).

Não é fácil acreditar nestas palavras e mais difícil ainda será assumi-las com gestos concretos no quotidiano. Com efeito, «não é fácil desenvolver uma sobriedade feliz, se nos tornamos autónomos, se excluímos Deus da nossa vida fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa subjectividade que determina o que é bem e o que é mal» (LS 224). Não é fácil para ninguém «amadurecer numa sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo» (LS 225). O mais importante, no entanto, é tornar-se ciente que a sobriedade e a alegria podem caminhar juntas e potenciar-se uma à outra. Depois de tanto tempo a escutarmos o contrário, não chegaremos a outra conclusão de forma automática.

As áreas da nossa vida que podem ser transformadas por uma “sobriedade feliz” são muitas, desde o comer e o beber, passando também pelos gastos e viagens e sem esquecer a própria gestão do tempo. Contudo, não resisto a trazer aqui uma afirmação de R. Cantalamessa, quando afirma que «hoje, é mais importante um sadio jejum de imagens do que o jejum de alimentos». Também a nossa relação com os diversos meios de comunicação social e digital precisa de ser mais sóbria e comedida. Precisamos de aceitar que não podemos ver tudo nem ler tudo. Passar horas a fio diante do televisor até pode ajudar a passar o tempo e a matar a solidão, mas é algo que também passa uma pesada factura, feita contaminação interior, ruído e superficialidade.

José Domingos Ferreira, scj