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Já se tem escrito tanto sobre o Covid que parece que não existe mais nada no mundo neste momento. Não duvido que algumas pessoas se sintam saturadas e cansadas com o fluxo de informação sobre este tema. Contudo, também já nos teremos apercebido que, por causa deste vírus, o mundo não será mais o mesmo. Há hábitos e procedimentos que estão a morrer, enquanto outros estão a conhecer a luz do dia…

Apesar de tudo isto, não quero deixar passar em claro uma revelação deste vírus. Depois de tantos anos de uma crença cega e acrítica nas capacidades da ciência, eis que um simples vírus nos veio mostrar o quanto a ciência é débil. Se, por um lado, a ciência conseguiu criar uma vacina em tempo recorde (o que é maravilhoso!), estamos a ver que essas vacinas não são tão eficazes nem tão inócuas como nos querem vender. Além disso, os meses vão passando e este vírus continua a escapar ao controlo humano. Vivemos entre avanços e recuos, entre confinamentos e desconfinamentos, entre proibições e permissões, determinadas pela força que o vírus exerce sobre as populações.

Noutra direcção, não deixa de espantar a divergência que existe entre os cientistas: divergência de opiniões, de estratégias a assumir, de visões, de medidas a implementar… Já sabíamos que cada cabeça sua sentença. O que talvez não sabíamos é que também no mundo científico assim era.

Quando digo que a ciência se mostra débil nestes tempos, não quero dizer que deve ser descartada e ser substituída por outra realidade que faça melhor figura. O que quero dizer simplesmente é que a ciência é uma realidade humana, feita por homens e mulheres com grandes potencialidades, mas também com fragilidades. E como realidade humana que é, a ciência é vulnerável e este vírus veio expor essas mesmas debilidades, que estavam escondidas ou eram menos visíveis ou simplesmente não as queríamos ver…

Aquilo que aqui está em causa é exactamente esse cheque passado em branco à ciência, que nos fez acreditar que ela teria a resposta a todas as inquietações, dúvidas, necessidades e desejos humanos. A admiração pela ciência assumiu tais proporções que aquilo que não pudesse ser comprovado cientificamente não tinha consistência nem valor. O fascínio pela ciência assumiu tais proporções que resvalou para a idolatria, acabando nós por exigir dela aquilo que ela não pode dar. Esquecemo-nos que os ídolos «têm boca, mas não falam; têm ouvidos, mas não ouvem…».

O Covid poderá ser essa grande prova das primeiras décadas do séc. XXI, que, tendo certamente ficado gravada na memória colectiva dos povos, veio para pôr no seu lugar muitas dimensões e realidades humanas, que andavam, duma forma ou doutra, à deriva e sem qualquer governo. Para os crentes, fica mais claro que a ciência é uma realidade criada e que só ao Senhor teu Deus adorarás; só a Ele prestarás culto.

José Domingos Ferreira, scj