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O mundo, criado por um Deus que é relação, não podia não ser «uma trama de relações» (LS 240). Esta “projecção” do Criador nas suas criaturas não foi uma obra do acaso ou um imprevisto, muito menos algo que tivesse fugido ao controlo do Artista primordial. Deus quis, desde o princípio, que a relação fosse uma dimensão essencial em cada criatura e que fizesse parte da sua identidade mais profunda, sobretudo naqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança. Neste sentido, sempre que alguém se fecha à relação, está a trair a sua dignidade e a intenção original do Criador.

Por conseguinte, é importante que estejamos avisados que esta capacidade de sair de nós próprios, de ir ao encontro dos outros, de estabelecer laços e criar vínculos profundos entre as pessoas, é divina. É um dom de Deus e é também o caminho para fortalecermos a nossa semelhança com Ele. Estamos a santificar-nos de cada vez que rompemos com o nosso egoísmo e vamos em direcção ao outro.

Na psicologia, diz-se que «o que cura é a relação» (Yalom). O papa Francisco prefere dizer que «sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem». Em sentido inverso, «fechar-se em si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá com cada opção egoísta que fizermos» (EG 87). Sempre que saímos de nós próprios, sempre que ousamos romper o nosso isolamento, sempre que damos um passo em direcção ao outro, estamos a adorar o Deus Trino.

Ser cristão é aceitar o convite «a superar a suspeita, a desconfiança permanente, o medo de sermos invadidos, e todas as atitudes defensivas que nos impõe o mundo actual». Nenhuma destas atitudes supostamente auto-protectoras se encontra em Deus. «Escapar dos outros, fechar-se na sua privacidade confortável ou no círculo reduzido dos mais íntimos» (EG 88) é fabricar um ídolo, que não tem nada a ver com a Santíssima Trindade. O cristão, que acredita num Deus único que é comunhão trinitária, descobre também que «toda a realidade contém em si mesma uma marca trinitária» (LS 239). Fomos criados para a relação com Deus, com os outros e com a natureza, pelo que a relação é «a chave da nossa própria realização» (LS 240). Este movimento de sair ao encontro dos outros é fonte de crescimento, amadurecimento e santificação.

Uma vez mais, escutemos o Papa: «o Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que o reflecte e por quem tudo foi criado, uniu-se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animado e suscitando novos caminhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade pessoal. Por isso, quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade» (LS 238).

 

José Domingos Ferreira, scj