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O mundo foi criado por amor. Tal como o artista humano, que se expressa naquilo que cria, a ponto de, ao olhar a obra, se reconhecer o seu autor, o mesmo Amor encontra-se reflectido na obra que Ele mesmo criou e manifesta-se no mais pequeno ser e na forma de vida mais minúscula.

A beleza e a diversidade das coisas criadas revela a criatividade infinita e a originalidade sempre renovada do divino Artista, capaz de criar todas as coisas a partir do nada, mas também de as manter no ser. Com efeito, «todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus» (LS 84).

O desafio é então o de aprendermos a ler a criação e decifrar esta linguagem amorosa que nela foi inscrita desde a sua origem. Trata-se de uma aprendizagem que trará uma nova luz à nossa vida, pois, «quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas» (LS 87).

A dificuldade do homem moderno para adorar o Senhor do céu e da terra parece encontrar aqui uma das suas explicações. De facto, a passagem da criação a natureza constitui um empobrecimento, com algumas consequências graves para a relação entre a humanidade e o ambiente natural. Na verdade, o respeito e o cuidado são mais óbvios, quando acreditamos que Deus está na origem deste mundo.

A criação caracteriza-se por um dinamismo oblativo, na medida em que ela se oferece continuamente. É esta contínua dádiva essencial que possibilita que o ser humano possa viver e desenvolver-se. A natureza é dom de si e esta dinâmica oblativa é constitutiva da sua essência, a ponto de ela se oferecer para satisfazer as necessidades de outrem em detrimento das suas.

Neste sentido, se a criação está ferida, isso significa que esta sua capacidade de se oferecer está mutilada. Na base desta situação, parece estar a atitude do ser humano, que pensou poder abusar desta disponibilidade oblativa em seu proveito e sem restrições de nenhuma espécie. Em última análise, o ser humano não se deixou tocar pelo amor, mas tem-se comportado de forma ingrata, indiferente e insensível ao amor, o que só se pode compreender porque precisamente este mundo deixou de ser visto e respeitado como obra de Deus Criador.

Como filhos espirituais do padre Dehon, podemos aprender da criação a vivermos aquela oblação que ele tanto nos recomendava. De facto, «queremos unir-nos a Cristo, presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele, com toda a humanidade e a criação inteira, oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável» (Constituições SCJ 22). A nossa recitação diária do acto de oblação não se faz contra a criação ou à margem dela, mas sempre tendo-a como uma referência útil e sábia.

José Domingos Ferreira, scj