Print Friendly, PDF & Email

É um costume muito enraizado entre nós o trocar presentes. Com uma prenda, assinalamos uma data importante e, sobretudo, manifestamos à pessoa que gostamos dela. No fundo, o presente acaba por ser sempre algo simbólico, pois o objecto material exprime e remete para algo mais profundo, feito de emoção e sentimento.

Habituamo-nos a mostrar o nosso amor através duma prenda. Talvez até tenhamos exagerado um pouco nesta prática, esquecendo-nos de outras tantas formas possíveis e necessárias. Sem dúvida que a sociedade da produção e do consumo excessivo contribuiu para este excesso, com o qual contaminamos algo que na sua génese é bom e belo.

Dentro das comunidades cristãs, escutamos com frequência os pregadores a falar no grande amor que Deus sempre manifesta por cada um de nós. Alguns até lançam o convite a olhar para a vida vivida e assinalar todos esses momentos em que sentimos que Deus nos abençoou e proveu às nossas necessidades, sem que fôssemos merecedores de tanta consideração e cuidado.

Ainda antes de nós – muito antes de nós –, o nosso Deus vive aquilo que propõe: «há mais felicidade em dar do que em receber» (Act 20,35). Assim, entre as inumeráveis prendas com que Deus enche e preenche a nossa vida, encontra-se a criação. Na verdade, «a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos» (LS 76). É a partir dela que nos alimentamos e respiramos, é nela que habitamos, é ela que nos enche os sentidos de beleza e constante novidade. Nós fazemos parte da criação: «somos terra» (LS 2), somos «natureza» (LS 6). Por mais que tentemos, não conseguimos saltar para fora dela nem conseguiremos obter um estatuto de independência face a ela.

Ao longo da vida, também aprendemos que, quando nos oferecem uma prenda, devemos agradecer e guardar essa oferta. Por isso, é um gesto de grave falta de educação e de respeito lançar fora aquilo que nos é dado. É falta de educação e respeito, mas também de delicadeza. Com tal atitude, mostramos que não somos merecedores de tanto amor; com tal atitude, resvalámos para o terreno da ingratidão.

Não é difícil intuir aonde acabo de chegar: se é uma grave falta de respeito desprezar aquilo que nos oferecem com gosto e carinho, como é que o nosso planeta se deteriorou tanto? Será que nos esquecemos dos elementares princípios da educação e do civismo ou será antes que nos tornamos meninos mimados e birrentos, habituados a ter tudo, e que portanto não dão valor a nada? Será que, cheios de tantas coisas, deixamos de apreciar os pequenos gestos e presentes de cada dia?

Destruir a criação é dizer a Deus: «não gosto desta prenda que me deste». E é dizê-lo da forma mais rude, grosseira e bárbara que podemos ter. Ora, é precisamente nisto que consiste o tal pecado ecológico (cf. LS 8).

José Domingos Ferreira, scj