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‘Verão Rima com Missão’: tem sido este o mote utilizado nos últimos anos para escrever sobre o Voluntariado Missionário, particularmente sobre o projecto do voluntariado dehoniano a nível nacional com a ALVD e internacional com o projecto MY Mission. Mas este ano, rasteirados pelo Corona Vírus, os projectos foram adiados para o próximo ano. É o chamado 2020+1.

Depois de 4 anos colaborando com o Voluntariado Missionário em Portugal, em Dezembro fui enviado para a Missão Dehoniana em Angola. Esta mudança prometia novos desafios, mas nem eu nem ninguém imaginava este cenário. Como aconteceu um pouco por todo o mundo, a primeira metade do ano foi marcada por um forte abrandamento das actividades para dar lugar às extenuantes quarentenas. Apesar dessas medidas muito restritivas, neste momento Angola está na fase crescente do pico de contágio, sobretudo na capital, Luanda, donde provêm a maioria dos produtos básicos e dos serviços. Facto que culminou com escassez desses produtos e escalada de preços. Sobressaíram ainda mais e à vista de todos as fragilidades em que vivemos e em que as pessoas se encontram.

Bem junto à fronteira de Dilolo, no Congo, a paróquia de Santa Teresinha do Menino Jesus compreende os limites do município do Luau, que conta com mais de 100 mil habitantes e uma superfície de 3839km2. Um território equivalente ao distrito de Coimbra, se contarmos algumas comunidades que já pertencem a outra paróquia-missão mas que apesar da distância (120km) está ao nosso cuidado pastoral. Ao todo são cerca de 30 as comunidades espalhadas pelo território da paróquia e, apesar deste tempo de pandemia, estão ainda a surgir novas comunidades cristãs que nunca foram evangelizadas ou que têm apenas um punhado de gente que foi baptizado no tempo da guerra. Se há coisas que tivemos de adiar, a fé parece que não foi uma delas. Tivemos de reaprender novos hábitos. As capelinhas com amontoados de gente a dançar e cantar deu lugar a celebrações campais com distanciamento e máscaras. Por estranho que pareça, senti que a vivência da fé saiu à rua. Terá sido necessária uma situação pandémica para nos fazer perder a vergonha de exteriorizar a nossa fé? Surge um novo paradigma que se quer impor.

Durante 3 longos meses não foi possível realizar celebrações nem reunir as comunidades e os grupos. Mas em consequência, nestas últimas semanas os baptismos são às dezenas e há alguns casamentos. Muitas das actividades de grupo dão lugar à visita aos doentes e idosos que já não podem deslocar-se ou que estão no hospital ou no sanatório a curar tuberculose. Floresce uma Igreja que se redirecciona melhor para um cuidado especial aos seus irmãos.

No Cacimbo (tempo seco) as comunidades dedicam-se a reconstruir as suas capelas com novos adobos e a cobertura de capim para chapa a fim de aguentarem a Estação das Chuvas. Pelo engenho do P. Joaquim, também se está a fazer uma Igreja nova, no Bairro Catombi, para se criar, em breve, uma nova paróquia no Luau. Os desafios e adversidades são imensos, mas sinto uma Igreja sempre a renovar-se.

Também no âmbito social vamos criando novos projectos, com o retomar das actividades da Pastoral da Criança nos bairros. Durante todo este tempo continuamos a fazer a distribuição de água pelos bairros e desde Julho retomámos os outros projectos de apoio à população: serralharia, moagem, horta/pomar e sala de informática. Na Visita Pastoral do Bispo de Luena, D. Jesus Tirso Blanco, fizemos o lançamos da Biblioteca Digital. Uma iniciativa da diocese que pretende dinamizar e criar hábitos de leitura através dos meios electrónicos. Uma vez que as aulas continuam suspensas desde final de Março e não se sabe ainda se irão abrir este ano. Foi precisamente no final da Visita Pastoral e no meio deste turbilhão de coisas que a 26 de Julho me tornei no novo pároco da Paróquia de Santa Teresinha do Luau, na presença dos meus antecessores (Pe. Joaquim Freitas e Pe. Manuel Jardim), de umas centenas de fiéis que, ao bom estilo africano, cantavam e dançavam entusiasticamente. Umas crianças do bairro Camuxito ficaram admiradas a ver-me chegar de moto (o P. Jardim sempre andava de moto), por isso, o catequista/tradutor apresentou o ‘Padre muaha’ (novo padre) que os ia visitar mais vezes.

Nestes tempos recriam-se novos hábitos mas o entusiasmo é o mesmo. É por isso que ‘Verão rima com Missão, mesmo em tempo de pandemia’.

P. David Mieiro, scj