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A liturgia deste domingo apresentou-nos esses Magos vindos do Oriente, que, guiados unicamente por uma estrela, vieram adorar um Menino acabado de nascer. É, de facto, um texto fascinante que entrou na piedade popular e até na memória do nosso povo. Não é de admirar, por isso, que a mesma imaginação popular se tenha dado ao trabalho de enriquecer e adornar aquilo que no texto evangélico é extremamente sóbrio.

Recordo-me que a minha mãe me dizia que «adorar só a Deus». Quanto às coisas criadas, se deve dizer apenas que «gosto muito». Na verdade, adoramos a Deus, porque «existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia» (LS 72). Adoramos não apenas porque Deus criou o mundo – e o criou de forma tão bela e extraordinária –, mas também porque essa criação continua a desenrolar-se hoje. Com efeito, «quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas» (LS 87). A adoração não é um acto forçado, mas algo que brota com espontaneidade, quando nos deparamos com o Mistério: «entraram na casa, vieram o Menino com Maria, sua Mãe, e, caindo de joelhos, prostraram-se e adoraram-n’O». A adoração impõe-se-nos quando somos capazes de reconhecer um poder maior que nós a agir em nosso favor.

Estes Magos, que fazem uma viagem tão longa, mostram-nos que «toda a sã espiritualidade implica simultaneamente acolher o amor divino e adorar, com confiança, o Senhor pelo seu poder infinito» (LS 73). Na verdade, os Magos convidam-nos a adorar o Senhor e a viver a vida em permanente estado de adoração. Eles recordam-nos inclusivamente que o próprio trabalho, enquanto âmbito do nosso desenvolvimento pessoal, pode ser vivido «em atitude de adoração» (LS 127).

Não obstante, este movimento de adoração conhece também ele as suas ambiguidades e perigos, pois, se não adoramos a Deus, mais cedo ou mais tarde, acabamos «por adorar outros poderes do mundo» (LS 75). Talvez aqui esteja a raiz da perturbação de Herodes e a sua fúria, quando descobre que tinha sido enganado pelos Magos. Herodes, que não queria que mais ninguém ocupasse o seu lugar, simboliza bem aquela «adoração do poder humano sem limites» (LS 122), que tantos malefícios e sofrimento tem causado nos nossos dias. Por isso, as suas palavras soam de modo falso e artificial: «ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O».

No meio do império da tecnologia e da arrogância humana, é, sem dúvida, muito difícil adorar a Deus. Mas talvez seja este o desafio que este novo ano nos está a pedir que abracemos com entusiasmo e convicção. A nossa vida muda, quando o nosso coração se orienta para o seu Criador.

José Domingos Ferreira, scj