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Um dia, enquanto andava a caminhar pelas ruas de Fátima, vi, mesmo à minha frente, um carro da polícia parado ao lado de uma senhora, que trazia uma criança pequena. Dentro do carro, o polícia advertia a senhora a não voltar a dizer aquilo que tinha dito à criança, porque, um dia, ela poderá ver-se numa situação em que deve chamar a polícia, mas não o fará, porque tem medo da polícia. Deduzi que aquela mãe deve ter dito à criança algo do género como “sai da estrada que vem aí a polícia e vai prender-te”.

O medo tem uma grande força e todos nós já teremos recorrido a ele numa ou noutra situação. É uma estratégia fácil e eficaz! Quando queremos que façam o que mandamos, costuma resultar incutir um pouco de medo nas pessoas. Há muito boa gente que arrasta consigo um fardo de medos muito pesado. Estou também convencido que muita da nossa sensibilidade ecológica actual se funda no medo, isto é, aceito mudar os meus comportamentos e atitudes ao nível da minha relação com o ambiente, porque tenho medo de uma eventual catástrofe ou que deixem de existir condições que me permitam viver neste planeta. Mudo de comportamentos, não por causa da força das motivações e convicções que tenho, mas pelo medo que me invade e me faz imaginar o pior cenário.

Às portas da semana santa, não queria deixar de dizer que Jesus foi condenado à morte, porque as autoridades do seu tempo tiveram medo do que poderia suceder, se ele continuasse naquele registo por muito mais tempo. De facto, é o que escreve S. João: «os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram então o Conselho e diziam: “que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação”. Mas um deles, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: “vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira”» (Jo 11,47-50). As autoridades religiosas começaram a temer o que poderia resultar dali. Rapidamente construíram um cenário fundado nesse temor e é em função desse medo que os habitava que tomam uma decisão de graves consequências. Assim opera o medo em nós. Não tenhamos ilusões nem pensemos que somos diferentes dos outros…

Para além de tudo isto, encontra-se aqui um grande paradoxo: Aquele que passou a vida a dizer e a repetir “não temais” é condenado à morte, por causa do medo que dominava as autoridades religiosas. Aquele que vinha libertar a humanidade das suas cadeias – e o medo é certamente uma delas – morre cravado numa cruz, que é também a cruz dos nossos medos e temores.

Neste semana em que celebramos a morte e a ressurreição de Jesus, ousemos dar a morte ao medo que nos escraviza e ressuscitar para uma vida mais livre e mais alegre.

José Domingos Ferreira, scj