Meditação sobre a Paixão
Na noite da Vigília Pascal, junto ao sepulcro, ouvimos o Anjo do Senhor que, refulgente de luz e com uma túnica branca como a neve, nos anunciava: “Não tenhais medo; sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como tinha dito” (Mt 28,2-6). O anúncio é de alegria, de confiança e de esperança. Que mensagem tão atual! Assim, com júbilo, celebramos o dia da ressurreição do Senhor!
A ressurreição do Senhor é um acontecimento histórico e meta-histórico. É histórico, não em sentido convencional, mas enquanto evento ocorrido dento da história, que se baseia na mudança radical dos discípulos e no testemunho dos mesmos, depois da morte de Jesus. Por outro lado, sendo uma realidade que está para além da história, é meta-histórico, isto é, transcendente, pois a natureza do corpo de Jesus ressuscitado e da sua presença já não se rege pelas leis da natureza das coisas nem obedece à limitação do espaço e do tempo. É um evento único e divino, possível apenas a Deus.
Assim, a festa da Páscoa é a celebração do poder de Deus que, em Jesus, nos salva pelo seu amor e nos renova com a sua graça.
Com a sua ressurreição, Jesus destruiu o poder do pecado, e a morte deixou de ter a última palavra a respeito da existência humana.
Por fim, a ressurreição do Senhor é a garantia que Deus nos oferece de que, um dia, também nós ressuscitaremos, com Cristo, para a vida eterna.
Para este dia de Páscoa, propomos um sugestivo quadro de arte sacra que nos permite reafirmar o que foi dito, ao mesmo tempo que nos recorda que a ressurreição do Senhor é um acontecimento que mudou a história — a do mundo e a nossa — e que é um dinamismo de vida, renovada e com sentido.
O mistério da vida, da morte e da ressurreição: um diálogo constante
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A pintura do artista veneziano Vittore Carpaccio (séc. XV-XVI) tem por título “Meditação sobre a Paixão”. Num olhar de relance, esta obra parece-nos estranha e um pouco misteriosa, a ponto de nos levar a colocar algumas questões: Qual é o seu verdadeiro tema? O que simbolizam aquele veado e aqueles coelhos? Qual é o significado da ave que levanta voo em direção ao céu? E a hera, que cresce no trono de Cristo, o que significa? Por que motivo estão aqui presentes São Jerónimo e Job, a assistir a esta cena, que não é propriamente um “Calvário” nem uma “Ressurreição”, mas parece ser uma “Deposição de Jesus”?
À primeira vista, não é fácil entendermos o tema deste quadro, apesar das várias explicações e propostas dos historiadores de arte. Contudo, podemos afirmar que, tendo em conta os múltiplos elementos representados, a obra procura conjugar vários aspetos do mesmo mistério de fé, situando-nos após a morte de Jesus — em particular, no momento da descida da cruz, antes da sua deposição no sepulcro. Todavia, a sua significação é complexa e intrincada; a sua interpretação teológica e espiritual é ampla, diversificada e aberta.
Esta pintura foi executada no período renascentista, numa Veneza que se tornara influente e rica, graças ao seu comércio com o Oriente. Ali, a arte florescia e frutificava através de grandes mestres, impulsionada por encomendadores e mecenas prestigiados, para quem Carpaccio realizou numerosos quadros. Supõe-se que a “Meditação sobre a Paixão” tenha sido uma dessas encomendas; contudo, o mistério da sua origem e do seu destinatário permanece incerto.
No centro da pintura está Cristo morto que, tendo maiores proporções em relação às outras figuras, surge como o protagonista e o ponto de referência. Cristo está descaído e, ao mesmo tempo, sentado num belo trono de pedra em ruínas. Nesta posição, Jesus parece encontrar-se a dormir, descansando dos trabalhos da sua Paixão. No espaldar do trono, por cima de Jesus, vemos uma inscrição em caracteres que parecem hebraicos, mas que é quase ilegível. No corpo de Jesus, notam-se poucos sinais da violência e da brutalidade da sua morte: o seu corpo está limpo, sem sangue, ostentando apenas as marcas das suas cinco chagas. É uma outra forma de representar Jesus ressuscitado! Da sua Paixão restam ainda dois sinais: a coroa de espinhos e um crânio que, junto aos seus pés, nos remete para o Gólgota, o “Lugar da Caveira” (cf. Jo 19,17-18).
A ladear Jesus estão dois anciãos. À direita, numa pose pensativa mas ativa, encontra-se Job, personagem do Antigo Testamento; à esquerda, vemos representado São Jerónimo que, batendo com a mão no peito em sinal de arrependimento e penitência, olha diretamente para o espectador. São Jerónimo viveu entre os séculos IV e V e é particularmente conhecido por ter traduzido a Bíblia para latim (a Vulgata). A sua erudição, penitência, austeridade e piedade são simbolizadas pela simplicidade do traje, pelos pés descalços, pelo bordão e, em especial, pelos livros e pelo chapéu dispostos sobre uma coluna de pedra, que o fazem sobressair. Junto desta coluna, esconde-se um leão, o seu fiel companheiro no deserto onde o santo viveu como eremita. Aliás, o leão é também representativo da sua personalidade de homem de temperamento forte.
Como referido anteriormente, a partir da posição de Jesus, os historiadores de arte tendem a situar esta representação no momento após a descida da Cruz, antes da sepultura. Uma vez que esta cena não se encontra nos Evangelhos, o quadro favorece múltiplas interpretações. Uma delas consiste em comparar a Transfiguração do Senhor no Tabor com a cena aqui encenada. Em ambas, Jesus ocupa o centro: na primeira, o Senhor transfigura-se e, revestido de luz, antecipa a sua futura ressurreição; na segunda, Jesus, embora morto, parece estar vivo — é um corpo que descansa sereno, aguardando a ressurreição.
Em qualquer das cenas, Jesus é sempre a referência e o motivo de diálogo e de sereno confronto entre as personagens que o ladeiam. Assim, o que temos neste quadro é uma espécie de diálogo — já não entre Moisés e Elias, mas entre Job e Jerónimo — que, por sua vez, parecem interpelar os espectadores a respeito de Jesus, que estava morto, mas agora vive. Trata-se, portanto, de um diálogo silencioso, onde tudo fala do mistério da vida, da morte e da ressurreição de Jesus — e da nossa.
A representação e a simbólica de Job: creio na vida eterna!
A presença de Job neste quadro é, de facto, surpreendente e inesperada: um caso raro na iconografia deste período. Job era um homem rico, piedoso e justo, que foi colocado à prova pelo demónio, perdendo todos os seus bens e a família. Tendo superado todas as provações, tornou-se exemplo de paciência, coragem, perseverança e fé. Apesar das inquietações interiores, dos sofrimentos e da doença, Job sempre esperou no Senhor, tornando-se o modelo do homem sábio, da existência sapiencial e da esperança na vida eterna. Numa palavra: um modelo de renovação e de ressurreição!
Efetivamente, as suas palavras são uma autêntica profissão de fé — uma confissão exemplar que aponta profeticamente para a obra salvífica de Cristo, quando afirma: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, os meus olhos O hão de contemplar” (Jb 19, 25-27). Assim, Job apresenta-se seminu (cf. Jb 1,21), para mostrar a sua natureza e a doença que padeceu. A lepra é símbolo do pecado e da morte, mas a fé, a esperança na ressurreição curou-o; ficou limpo. Portanto, aqui Job encontra-se curado e, logo, “ressuscitado” aos nossos olhos, tendo sido revestido com uma nova pele.
Digno de nota é o facto de Job apontar com o dedo para o crânio (símbolo da morte) que se encontra no chão, entre ele e Jesus, e que está semiesmagado. Em muitas representações, o crânio aparece aos pés da cruz de Jesus. Trata-se de um elemento simbólico com um significado geográfico (Gólgota, o “Lugar da Caveira”) e teológico. Este último é fundamental, pois procura relacionar, segundo a teologia paulina, o “velho Adão” com o “novo Adão”, que é Cristo. Portanto, o sítio da crucifixão, seria o lugar da sepultura do primeiro Adão. Ali, a cruz de Cristo foi plantada para que o sangue do Redentor escorresse até às profundezas da terra, tocando, purificando e dando vida nova aos filhos de Eva, gerados agora para a vida eterna, pela morte e ressurreição do Senhor. O crânio destruído simboliza, assim, a vitória do Crucificado sobre o pecado e sobre o Inimigo de Deus e dos homens. Em síntese, o “velho Adão” foi substituído pelo “novo Adão”, que não tendo cometido pecado algum, a todos salvou pela sua obediência e morte de cruz, anulando a sentença de condenação aplicada a toda a humanidade e que, agora, com a oferta da vida de Jesus é libertada da condenação eterna e, portanto, salva e conduzida à ressurreição.
Para além deste significado, convém apresentar um outro não menos importante. O gesto Job, que representa a expetativa e esperança latente de todo o Antigo Testamento em relação à pessoa de Jesus, com o seu gesto este homem justo lembra a todos que havemos de morrer um dia e recorda, ao mesmo tempo, o desprezo e a pouca importância dos bens deste mundo, das suas vaidades e vanglórias, perante a grande riqueza do sacrifício de Cristo e da herança que Ele a todos promete e concede.
Pelo que foi dito, o gesto de Job é altamente simbólico, pois a morte foi destruída pela ressurreição de Cristo, esse acontecimento que Job, na paciência e na esperança, aguardou e que agora se cumpre e se sente feliz por isso. É de notar que São Jerónimo comentou as palavras referidas de Job, particularmente, em duas das suas cartas (Carta 53, dirigida a Paulino de Nola, e a Carta 108), classificando-as de proféticas. Assim sendo, este quadro é, efetivamente, uma meditação sobre a morte e a ressurreição, partindo do mistério da Páscoa de Cristo.
A existência humana, entre a vida e a morte
Também de ressurreição e de vida nos fala a paisagem do lado direito, contrastando com o sofrimento, a aridez e a morte presentes no lado esquerdo. Na verdade, estas distintas paisagens que envolvem as figuras, mais do que uma simples decoração, confirmam a hipótese da passagem da morte para a vida.
O quadro está dividido em duas partes a partir do trono. À direita, a natureza é verdejante e luxuriante. Ao longe, junto a um lago, vislumbra-se uma aldeia, pessoas no seu quotidiano, vários edifícios e uma colina com árvores. A vida parece irradiar e está presente em todos os lados, nas paisagens, nas montanhas de tons azuis e com esfumaturas e no céu com nuvens pitorescas. A meio do caminho, entre o primeiro e o segundo plano, entre Jesus e Job, vemos um veado que se escapa dum leopardo. O veado é uma referência aos salmos, em especial, ao salmo 42, no qual a alma que aspira e anseia pela salvação é comparada com este animal que corre veloz em busca da água e se escapa de forma atenta e vigilante das ciladas e perigos deste mundo, para encontrar descanso apenas em Deus, de quem tem sede.
Além deste, surgem outros animais que representam a abundância e a vida. Por exemplo, atrás da cabeça de Job, vê-se um par de coelhos, símbolo tradicional da fertilidade.
O cenário muda drasticamente à esquerda. Aqui, temos uma colina rochosa e estéril e uma árvore morta, fixa no cimo de um penedo. Mais acima, vemos um leopardo que acaba de capturar um veado (ou corça) — precisamente aquele que se tinha escapado na representação à direita.
Em suma, a paisagem desta pintura pretende representar, simbolicamente, o ciclo da vida e da morte, realçando que a existência deve ser vivida de forma sábia, apoiada na fé, na esperança e na expectativa da vida que há de vir. Esta é um dom que Deus nos oferece continuamente por meio do seu Filho, morto e ressuscitado. É por isso que vemos, no trono desgastado pelo tempo onde repousa Cristo, a vida a retornar através da vegetação que brota das suas fissuras e da hera, cujas folhas perenes simbolizam a vida eterna.
Por último, acima do trono, vale a pena referir o simbolismo de um pássaro a voar, que representa o voo da alma chamada a tomar parte na vitória de Cristo, na sua ressurreição e na vida eterna.
Provocação final: o olhar de São Jerónimo, o amante da Escritura
O olhar de São Jerónimo, que interpela o espectador, é uma provocação à fé e uma reflexão sobre a vida, que deve ser vivida em tensão — isto é, numa dinâmica do “já” e do “ainda não”. Por isso mesmo, deve ser vivida de forma responsável, “na sobriedade, na justiça e na piedade” (Tt 2, 12). Ele, que tão bem conhecia a Escritura, parece lembrar-nos as palavras sábias e cheias de fé do Apóstolo:
“Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. Por isso não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior renova-se de dia para dia. Porque a ligeira aflição de um momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis; as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não feita por mãos humanas” (2Cor 4, 14 – 5, 1).
Que estas meditações sejam constantes na nossa vida de peregrinos, rumo à meta e àquela herança — o tesouro que nem a traça nem a ferrugem consomem, nem os ladrões roubam. É aqui que deve estar o nosso coração e depositada a nossa esperança. Porque “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 19-21).
Pe José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade do Seminário de Nossa Senhora de Fátima – Alfragide
