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A actual crise ecológica não constitui apenas a consciência do perigo eminente que nos afecta, após anos e anos de degradação irresponsável do planeta. Ainda que esta perspectiva seja verdadeira, é preciso reconhecer é muito pobre e limitativa. Na verdade, esta crise ecológica é também uma oportunidade – uma grande oportunidade – para (re)aprendermos a viver espiritualmente esta terra.

Não poluir, reutilizar ou reciclar são, certamente, acções de grande significado neste tempo e muito do futuro do nosso planeta passará pela convicção com que as assumirmos na nossa vida quotidiana. No entanto, o que está em jogo vai muito mais além destes comportamentos, que, de alguma forma, são apenas a primeira etapa do caminho ou a parte mais visível de algo que é muito mais profundo e enriquecedor.

Viver espiritualmente o planeta é descobrir a criação como um cenário único, privilegiado e incomparável para a experiência estética, o assombro, a admiração e a beleza. Isto implica renovar a nossa capacidade de olhar e dotá-la de uma nova densidade e sentido, capaz de captar a diversidade e a novidade constante com que Deus dotou a natureza e desfrutar gozosamente dela. Esta conversão do nosso olhar tem a ver com a transição do «ver» para o «contemplar», precisamente como algo mais profundo, mais intenso e verdadeiramente místico. É que para chegar à metafísica é forçoso passar pela física.

Viver espiritualmente o planeta implica uma conexão cheia de empatia com a realidade, que já não é vista como simples matéria manipulável que eu usar em meu proveito, sem me preocupar com as eventuais consequências do meu uso desordenado. Dito doutro modo, é o abrir-se à compaixão enquanto capacidade de admiração e de respeito pelas pessoas, pelos animais e pela natureza. Um coração compassivo é aquele que se deixa afectar por toda a criação, mesmo pelo ser mais insignificante. Deste modo, podemos fazer experiência da realidade na sua plenitude, uma experiência em que implicamos todo o nosso ser e que nos sentimos ligados a todos os outros seres que habitam a casa comum.

Viver espiritualmente o planeta é dar-se conta do dom da criação e de como cada dia Deus nos enche de vida através dos muitos seres com quem nos relacionamos. Esta é uma via aberta para a alegria e o entusiasmo, de quem se descobre cuidado e protegido com tão grandiosa obra.

Por isso, é importante que nunca nos esqueçamos que «a meta do caminho do Universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação universal. E assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é a Deus» (LS 83).

José Domingos Ferreira, scj