Na nossa vida há experiências que nos marcam profundamente e, por muito que nos esforcemos, é sempre difícil de transmitir aos outros o que vivemos. É constatando esta dificuldade que procuro transmitir-vos o que experienciámos durante este mês de Agosto por terras da Alta Zambézia, Moçambique.
Sete aventureiros partiram numa missão de voluntariado rumo a Moçambique, após uma intensa preparação de sete meses (de Janeiro a Julho). Certamente que poderia ser o titulo para mais um romance dos sete…
Após uma longa viagem aérea, via Lisboa/Amesterdão/Johanesburgo/Blantyre, em que atravessámos toda a África, ainda nos esperavam mais umas 6 horas de viagem em terra batida rumo ao Gurúè.
Chegámos cansados mas felizes, com tantas expectativas na nossa mochila.
Os primeiros dias foram para conhecer a bonita zona do Gurúè, as suas verdes e infindáveis plantações de chá e as cascatas. Também foi o primeiro contacto com o CPLD e as actividades “industriais” que desenvolve, fomentando trabalho para aquela comunidade.
E o primeiro contacto com as comunidades religiosas foi de arrasar. Faz arrepiar a forma como as pessoas vivem e exprimem a sua fé, numa celebração animada em que toda a gente canta num ritmo alucinante.
O que marcou profundamente foi a nossa actividade no Alto Molócuè. Também a este nível tínhamos muitas expectativas e projectos, com receios à mistura, pois estávamos perante uma realidade social e cultural muito diversa da nossa. Foram duas semanas intensas e tão diversas uma da outra.
A primeira semana foi passada entre as crianças, tendo como pano de fundo o nosso planeta nos seus cinco continentes. Quantos viriam? Ninguém nos sabia dizer… certamente muitos. Era preciso esperar para ver.
No primeiro dia de manhã, a medo, as crianças aproximavam-se do portão da nossa comunidade e iam entrando… facilmente chegando e ultrapassando os cem. Começavam a sentir-se bem entre nós, aprendendo novas canções e realidades diversas do nosso mundo e também ensinando-nos as suas canções. Na parte da tarde, outro grupo de crianças e repetia-se a dose. E assim foram decorrendo os dias, passando por nós uma média de 300 crianças por dia (de manhã e de tarde). Sei que pode ser difícil de acreditar mas, a uma certa altura, tínhamos que fechar o portão pois não havia espaço para mais. Estas crianças, sedentas de coisas novas, bebiam tudo aquilo que lhe transmitíamos. Incrível era logo de madrugada ouvir elas a cantar e chamar pelos nossos nomes, já à espera da abertura do portão.
Se a primeira semana foi intensa, a segunda não o foi menos, embora de uma forma diversa. Nesta segunda semana, a nossa actividade foi desenvolvida entre os jovens das várias comunidades religiosas.
A nossa missão do Alto Molócoè, que conta cerca de 250 comunidades, está dividida em 5 centros pastorais: Malua, Namite, Namaloè, Jawa e Chapala. Dedicámos um dia a cada centro. Cada dia contava com uma média de 100 jovens, com os quais trabalhámos a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Juventude de 2006, cujo tema era “A tua Palavra é lâmpada para os meus passos e luz para os meus caminhos”. Partindo da mensagem do Papa, reflectimos sobre a importância da Palavra de Deus para a vida dos jovens. Trabalho duro, que exigia uma interpretação minuciosa da mensagem do Papa e que esbarrava por vezes na dificuldade da língua. Nas comunidades do interior, nem todos sabiam falar ou percebiam o português, o que tornou a nossa tarefa mais árdua mas, por outro lado, motivante. Era necessário explicar, em pequenos grupos, as coisas em pormenor, originando momentos de diálogo e reflexão muito interessantes. Cada um destes encontros era finalizado com a Eucaristia, animada pelos jovens, e o almoço que a comunidade preparava para nós, à base da chima, feijão, caril e galinha. Em cada um destes lugares éramos sempre muito bem recebidos com cantos de boas vindas e com muito calor humano. Um facto também curioso é que alguns destes jovens tinham que fazer grandes deslocações (alguns de 2 ou 3 horas) a pé ou de bicicleta, para participar nestes encontros.
Depois destas intensas duas semanas, voltámos ao Gurúè, ao CPLD, onde desenvolvemos várias actividades no apoio à cozinha e à jardinagem, e visitámos várias obras de crianças órfãs e a cadeia.
Muito mais haveria para contar… mas as palavras são sempre tão poucas e escassas!!!
Como dizia alguém do nosso grupo, quem vai a África já não volta o mesmo… e isso é pura verdade.
O nosso muito obrigado a todas aquelas pessoas e entidades que tornaram possível este projecto, não só com o seu apoio material mas também espiritual, estando unidos a nós pela oração.
Um bem-haja a todos e faço votos que outros possam ter esta oportunidade de uma experiência de voluntariado tão intensa e rica.

| Juan Noite, scj |