Luau, 7 de Março de 2007
Chegámos esta manhã a Luau, pelas onze horas, após uma viagem que durou mais de um dia. Viagem atormentada e acidentada…
Partimos ontem de Luena pelas cinco horas da manhã, os padres Joaquim, Elio Greselin, Tullio Benini e eu, acompanhados do catequista Lopes. Fomos percorrendo os longos quilómetros, ora em partes de asfalto bem danificado e esburacado, ora em piso de terra arenosa, ora em terrenos constantemente “possuídos” por grande poças de água lamacenta e por enormes buracos. Passámos algumas pontes de madeira em muito mau estado, outras já reconstruídas em ferro. Estive aqui há dois anos e, tirando algumas pontes e partes da estrada em reconstrução onde trabalham angolanos e chineses, não vi grandes melhorias (lembrei-me de Madagáscar, onde percebi enormes melhorias nas redes viárias, quando lá estive nos inícios deste ano, em comparação com a minha ida três anos antes).
Enfim, lá fomos andando, sob a boa condução do P. Joaquim. As adversidades do caminho iam dando cabo dos nossos costados. De vez em quando parávamos para beber ou comer qualquer coisa que tínhamos comprado em Luena. É que quanto a “estações de serviço”, como alguém da comitiva pensava encontrar, nem cheiro. É que são 350 Km na floresta, passando por algumas povoações, sem rasto de combustível ou de alimentação…
Meio-dia de ontem. Íamos com mais de seis horas de viagem, acabados de passar numa das pontes construídas na véspera, quando o carro parou… e não mais quis andar. Várias tentativas nada adiantaram. Caixa de velocidades? Disco? Transmissão? Não se percebia a razão, também não éramos mecânicos. Quando passava algum carro, parava para ver da situação, nova tentativa com candidatos a mecânicos, novas hipóteses para a causa da avaria… Nada a fazer. Um dos carros, entretanto, regressa e diz-nos que a ponte seguinte está em reconstrução e que não se pode lá passar nos próximos dias. Estávamos a dez quilómetros dessa ponte… Mesmo com o carro a funcionar, não haveria nada a fazer para chegar a Luau.
Entretanto, já havíamos enviado mensagem por outros passageiros, que iam fazer o transbordo nesse ponto de passagem, para avisarem o Padre Jorge Alves da situação. Telefone, nem pensar. A partir de Luena, não há telefone. E no Luau, só funciona com a linha telefónica do Congo. Pedimos boleia para levarem o Lopes até esse ponto, na possibilidade de esperar que o Padre Jorge viesse até à ponte em construção.
Fomos esperando toda a tarde, conversando, ora à sombra do arvoredo, ora dentro do jipe (quando veio uma chuva torrencial). Rezámos o Rosário (antigamente dizia-se Terço!). Íamos cumprimentando e falando com os raros passageiros que iam passando e paravam para saber o que se passava. Houve mesmo um condutor de um camião de passageiros que aceitou rebocar o jipe até à ponte em construção. Começámos a preparar os cabos, quando o “gerente” do dito camião voltou com a palavra atrás. Voltámos à estava zero. Paciência. Desejamos-lhe boa viagem e que não acontecesse o mesmo que a nós. Continuámos à espera de possível ajuda, já preparados para passar a noite por ali. O sol já se tinha posto, com direito a algumas fotos, talvez para um postal com belos pensamentos à luz do luar…
Pelas sete da noite, chega um jipe onde vinha o nosso amigo Lopes. Pertencia à empresa que está a construir a ponte. Levou-nos a nós e à bagagem para o estaleiro junto à ponte, ficando no “local do crime” o Lopes a guardar o nosso carro avariado. O chefe do estaleiro deixou-nos passar a noite numa das tendas onde dormem os trabalhadores. Foi uma grande simpatia da sua parte. Lá ficámos a dormitar (e a roncar) os quatro em cima de três velhos colchões na terra.
Hoje, manhã cedo, vimos que o Padre Jorge estava do outro lado da ponte à nossa espera desde as três da manhã. Deram-lhe o recado ontem à noite e ele pôs-se a caminho do Luau com um jipe da MAG (uma ONG da União Europeia que está a fazer a desminagem do território). Vinha acompanhado de dois motards, para o caso de ser necessário ir buscar-nos ao carro avariado. Atravessámos o resto da ponte velha com as bagagens às costas e, pelas sete da manhã, partimos finalmente para completar o resto da viagem para o Luau. Entretanto, ficara um senhor a guardar o carro avariado da missão, tentando que hoje fosse rebocado para o estaleiro das obras. Quando a ponte estiver pronta, tentará ser rebocado para o Luau, estando o Padre Jorge à espera para a respectiva verificação e desmontagem das peças. Nada pode ficar abandonado, senão tudo desaparece (roubado ou “desviado” do lugar é a mesma coisa). E assim fizemos o resto da viagem, em que recordei constantemente a viagem de há dois anos, quando aqui me desloquei para o início da missão, juntamente com o Bispo de Luena.
Chegámos aqui ao Luau pelas onze da manhã, todos cansados e rebentados, mas contentes por estarmos entre confrades e amigos, nesta pequena casinha bem acolhedora, com tanto trabalho realizado pelos padres Joaquim e Jorge. Almoçámos uma excelente sopa de feijão e um bom prato de carne com massa. Não faltou uma pinga de Porto e bolo de mel da Madeira. Já estávamos com saudades de uma refeição quente e tão apetitosa, o que já não acontecia há quase dois dias…
Descrevi com algum detalhe, mas deixando de lado tantos pormenores, esta atribulada viagem, apenas com a intenção de comungarmos algo que é frequente na vida dos nossos missionários por estas andanças angolanas, sobretudo no interior. Longe de os levarem ao desânimo, as provações fortalecem o espírito e a dedicação à missão do Reino do Coração de Jesus.
Pela tarde, celebrámos na igreja do Luau, a tal que não tem telhado, mas tem já a solidariedade de tantos amigos e benfeitores de Portugal que aderiram à recente campanha “telhado para a igreja do Luau”. Trouxe comigo o fruto dessa partilha (algumas dezenas de milhares de euros), que será aplicado na melhoria deste espaço onde os cristãos rezam, celebram a fé e a vida, meditam a Palavra de Deus, têm a catequese e a formação. Vamos agradecer a Deus o facto de estarmos unidos em família e a força que Ele nos transmite nas dificuldades.
Na celebração da Eucaristia, esteve um bom grupo de fiéis e o grupo coral. Não faltaram os acólitos, bem treinados e aplicados. Estiveram também as Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, as irmãs Júlia, Rosa e Amélia, que estão no Luau apenas há quinze dias (chegaram a 14 de Fevereiro!). Estão numa casa da missão que foi totalmente reconstruída sob a orientação dos nossos missionários. Está uma casa muito bonita, arejada e acolhedora.
Termin&aacu
te;mos o dia com um bom jantar. Experimentámos o novo computador que trouxe para ficar no Luau e que funciona bem com o videoprojector que o Padre Joaquim já havia trazido. Depois de rezarmos juntos as Vésperas, vimos no tal aparelho o documentário “mensagem de Fátima” e fomos tentar descansar nesta primeira noite no Luau, sob a protecção de Nossa Senhora do Coração de Jesus.
| Manuel Barbosa, scj – Superior Provincial |