superior provincial em angola – crónica/04

Luau, 8 de Março de 2007

Pelas seis e meia da manhã, já estávamos a rezar juntos as Laudes, depois de uma noite passada sob o barulho da chuva, por vezes torrencial, à mistura com relâmpagos e trovões. Tínhamos previsto visitar bem cedo a Casa da Missão, que será a residência da comunidade religiosa e está à espera de ser reconstruída. Não foi possível ir logo de manhã, a seguir ao pequeno-almoço, devido à chuva.
Ficámos aqui por casa ocupando o tempo na conversa e na leitura. Falámos da realidade desta missão, que tem uma extensão de cerca de 3600 quilómetros quadrados e cerca de 70 mil habitantes. A missão do Luau tem o nome de Paróquia de Santa Teresa do Menino Jesus, com as suas 25 comunidades cristãs: Progresso, Kamucito, Cisombo, Sakandange, Musukuege, João Gil, Zanango, Chamby, Katota 1, Katota 2, Sakatombo, Marko 25, 11 Novembro, Katula, Casela, Cilemo, Saviemba, Cimguly, Retornado, Ciena, Terra Nova, Fonte, Luhanga, Kapangaba, Luau (sede). Os nossos missionários já visitaram grande parte destas comunidades. O Bispo de Luena entregou-nos o cuidado desta missão a 14 de Março de 2005.
Ao fim da manhã, fomos visitar a Casa da Missão. Uma bela e sólida construção feita pelos Beneditinos, que foi sendo destruída pela guerra e pelo uso dos militares. Tudo desapareceu, só ficaram as paredes sólidas. Vimos a casa e inteirámo-nos dos projectos para a sua reabilitação. Os materiais têm um custo muito elevado, a que é preciso acrescentar o exorbitante preço do transporte de Luanda. Veremos mais em pormenor como obter financiamento para esta obra prioritária.
A seguir, fomos visitar a JRS (Jesuit Refugee Service), uma organização não-governamental ligada aos jesuítas. Estão instalados no terreno da missão e devem sair proximamente do Luau. As estruturas construídas ou remodeladas, como casas e outros anexos, ficarão para a missão. Visitámos igualmente a MAG, organização não-governamental para a desminagem, que se encontra igualmente no terreno da missão. Está a sair do Luau e deixa as estruturas à missão. O Bispo acolheu estas duas organizações no terreno da missão, com a condição de deixarem as estruturas para a missão. Assim acontece e tal será um óptimo apoio para as actividades pastorais da missão. É possível ainda que a JRS ajude a reconstruir a escola da missão, situada no seu território. O terreno da missão tem um perímetro aproximado de dois quilómetros, que precisa de ser vedado. A verba para esse trabalho já foi entregue. Por enquanto, fez-se apenas uma vedação mais perto da nossa casa, havendo um guarda a vigiar a casa e o terreno.
A seguir ao almoço, aproveitámos para descansar um pouco, antes da missa na igreja, habitualmente pelas 16.30 horas, presidida hoje pelo P. Elio Greselin. Brindou-nos com umas “breves palavras”, que se esticaram numa vibrante pregação, em vivo diálogo com os fiéis.
Antes do jantar, as Irmãs da CONFHIC vieram colocar cortinas nas janelas e umas colchas para as camas. Uma melhoria nas condições desta casa, pequena mas muito acolhedora, graças aos nossos confrades que aqui estão.
Rezámos juntos, vimos algumas notícias de Angola (sempre com longos discursos das inaugurações…) e fomos descansar. O P. Jorge combinou com um condutor da JRS ir de madrugada tentar rebocar o carro para o Luau. Partirão pelas três da manhã para chegar ao local pelas seis horas. Quanto ao regresso, depende das condições, se conseguirem fazer o reboque. Tanto pode demorar meia dúzia de horas, como um dia. Esperemos que tudo se passe pelo melhor. O P. Jorge ainda foi ligar os seus motores para reparar uma avaria do carro da MAG emprestado e construir uma engenhoca para fazer a ligação ao carro avariado. Quando fui dormir, já tinha reparado o carro, estava a construir a tal engenhoca. Apesar do barulho do gerador, consegui adormecer, com tanto sono acumulado dos dias anteriores.
Mais um dia aqui com a comunidade, vivido em autêntica fraternidade e bom ambiente. O P. Elio vai-nos deliciando com a sua longa experiência africana em Moçambique, em muitos aspectos diferente de Angola. Falou-nos bastante da experiência de comunidade que estão a realizar em Moçambique, muito assente na responsabilidade dos ministérios laicais. O P. Túlio, além de compreender bem português, já está quase a falar esta língua, que é oficial em Angola. Não há necessidade de recorrer a intérpretes entre nós, safamo-nos bem na comunicação. Tem sido uma experiência inter-provincial muito positiva.
Não poderemos sair para fazer algumas visitas às comunidades, devido à falta de carro. Neste momento, avariado o carro da diocese ao serviço desta missão, só resta o carro emprestado pela MAG e que tanto jeito tem dado. Já foi encomendado (e pago) há quatro meses um novo carro para o serviço dos confrades aqui no Luau (e outro para as Irmãs), mas deve chegar a Luanda na próxima semana. Depois, tem que fazer a rodagem em Luanda (1000 Km), antes da aprovação final para poder vir para o Luau. Tudo deve ser previsto com muita antecedência e esperar com a proverbial paciência africana. Como vemos, isso não acontece só com o pedido dos vistos para entrar em Angola, acontece também com o material, caríssimo e só obtido em Luanda.
Amanhã será outro dia, a ser vivido ao ritmo da vida local. Embora estejamos sem quaisquer notícias de Portugal, comuniquei aqui aos confrades que hoje foi nomeado o novo Bispo do Funchal, na pessoa de D. António Cavaco Carrilho, natural do Algarve e actual Bispo Auxiliar do Porto. Que o Senhor o abençoe no seu ministério pastoral ao serviço da Diocese do Funchal (que engloba as ilhas da Madeira e Porto Santo), onde se iniciou a presença dehoniana em Portugal, há 60 anos, com a chegada dos padres Ângelo Colombo e Gastão Canova.

| Manuel Barbosa, scj – Superior Provincial |