Km 9, Viana, 15-17 de Março de 2007
15 de Março, quinta-feira.
Depois das Laudes, meditação e pequeno-almoço, começámos um tempo prolongado de reuniões de avaliação e de perspectivação da Missão Dehoniana em Angola, três anos após o seu início. Um tempo precioso de escuta mútua, para discernir a nossa presença aqui e reorientar o rumo da nossa acção missionária, se tal for o caso. O P. Madella foi proposto como moderador deste conjunto de reuniões e o P. Jorge disponibilizou-se para as secretariar.
Como Superior local da Comunidade Territorial de Angola, o P. Madella renovou as boas-vindas a todos os confrades, sobretudo aos três Superiores Provinciais, e apresentou brevemente o itinerário dos próximos dias. De realçar que, desde a nossa chegada, os confrades missionários apresentaram-nos um programa bem delineado e detalhado da nossa visita, quer no Luau quer aqui no Km 9 em Viana. Assim, o tempo tem sido bem aproveitado, mesmo contando com as contrariedades e imprevistos que fazem parte da normalidade de quem tem de atravessar o território angolano de oeste a leste, indo mesmo ao Congo, por ar, por terra e por água, conforme já partilhei anteriormente convosco.
Na manhã desta quinta-feira, foi dada a palavra aos Superiores Provinciais. Comecei eu, enquanto Superior Maior delegado pelo Superior Geral para a Missão de Angola e Superior Provincial de Portugal. Fiz o historial da nossa missão, deste os seus antecedentes até à actualidade, realçando os momentos mais marcantes desta fecunda caminhada; fiz esta apresentação, distribuindo documentação vária e apresentando o mesmo itinerário de forma visual (o tradicional powerpoint). Manifestei ainda o empenho da Província Portuguesa neste projecto missionário, a nível de pessoal e de economia. O P. Tullio Benini resumiu igualmente o processo de integração nesta missão assumido pela Província da Itália do Norte, que não tem tido a disponibilidade desejável de pessoal, por terem enviado recentemente missionários para Moçambique, Congo e Uruguai. O P. Elio Greselin falou da participação da Província de Moçambique, ao enviar um missionário, esperando proximamente poder disponibilizar mais alguém para vir para Angola. Seguiu-se um interessante diálogo entre todos os participantes na reunião. A terminar, o P. Manuel Barbosa recordou novamente o sentido congregacional deste projecto: neste momento, estão três Províncias directamente envolvidas (Moçambique, Itália Setentrional e Portugal), mas espera-se que nos próximos três anos haja a possibilidade de o Brasil Central, o Brasil do Sul, o Congo e os Camarões se envolverem pessoalmente nesta missão, como foi delineado em 2003. A manhã terminou com um momento de silêncio contemplativo na adoração eucarística, orientada pelo P. Tullio Benini.
A tarde foi destinada à apresentação das missões do Luau e de Viana (Km 9). Os padres Joaquim Freitas e Jorge Alves apresentaram a realidade missionária do Luau, nos seus anseios e dificuldades. É a segunda cidade mais importante do distrito do Moxico (este distrito tem três vezes o tamanho de Portugal…). Uma população muito pobre, que vive em situação muito precária. Na sua maioria, são refugiados que regressaram do Congo e da Zâmbia, depois de 2002. As comunidades cristãs são muito dispersas: uma das comunidades fica a mais de 60 km do centro do Luau. As estradas são muito más. Por enquanto, a presença missionária é de instalação. Mas nota-se um apreço muito positivo pela presença dos missionários, que se têm empenhado na pastoral da comunidade, na visita às comunidades e no campo social, além de estarem a reconstruir as estruturas físicas da missão, que se chama Paróquia de Santa Teresinha do Menino Jesus.
O P. Madella falou da missão no Km 9, Viana, e da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. Fez uma breve resenha histórica da nossa presença, desde os inícios, em Março de 2004. De seguida, apresentou de forma mais estruturada a nossa presença como dehonianos, a presença inserida na Igreja local de Luanda, a presença na sociedade contribuindo para as questões sociais, em particular da educação e da formação, a pastoral vocacional, a pastoral da vida cristã e vocacional, a comunhão com a vigararia de Viana de que fazem parte quatro grandes paróquias, a relação de confiança com os bispos da diocese. Os padres Domingos e Vincenzo complementaram esta apresentação, incidindo na vida da comunidade religiosa e da comunidade paroquial. Seguiu-se um fecundo diálogo construtivo, em vista de uma melhor coordenação e animação da nossa presença como Sacerdotes do Coração de Jesus.
16 de Março de 2007, sexta-feira.
De manhã cedo, fui com o P. Domingos celebrar à comunidade das Irmãs Franciscanas da CONFHIC. Além da comunidade religiosa, há um bom grupo de aspirantes e postulantes. Após as habituais actividades de início do dia, passámos a manhã em reunião, tratando dos assuntos económicos. Vimos a situação actual e reflectimos sobre alguns projectos futuros, quer aqui na nossa casa do Km 9 (estrutura formativa, capela e alguns anexos) quer no Luau (reconstrução da chamada Casa da Missão, que será residência da comunidade religiosa).
Verificámos novamente o custo demasiado elevado da vida em Angola (mais elevado no Luau do que em Luanda), num contexto geral de sobrevivência, precariedade e miséria. Tudo é mais caro do que na Europa, por exemplo, e não se encontram alternativas, sobretudo para os bens primários necessários para a vida quotidiana. Basta ver o custo elevadíssimo da água num país rico em biblioteca hídricos… Basta ver o crescente aumento e falta de combustível num país riquíssimo em petróleo…
A tarde deste dia foi para visitar duas Congregações que, aqui perto, têm estruturas formativas. O conhecido P. Luís França apresentou-nos, com sentido criticamente construtivo, a experiência do pequeno grupo que acompanham como postulantes: três anos de Postulantado, enquanto frequentam a Filosofia, depois fazem um ano de Noviciado; os quatro anos de Teologia são feitos na África do Sul, por sinal na mesma instituição onde os Dehonianos frequentam aí a Teologia. Na casa de formação da Sociedade da Boa Nova, o P. José António apresentou-nos a mesma realidade, com a diferença de estarem a fazer a Filosofia e a Teologia na mesma casa, o que não parece ser positivo. Foram breves contactos, mas importantes para perspectivarmos também o itinerário formativo em Angola, na medida em que já temos dois aspirantes a Dehonianos, o Bartolomeu e o Henrique, que estão na nossa casa e frequentam Filosofia e Pedagogia no Instituto S. João Bosco (os Institutos Religiosos contactados fazem-no no Seminário Diocesano). De passagem, fomos visitar a Escolinha da Pa
z das Irmãs Dominicanas; foi num pequeno anexo que os nossos primeiros missionários viveram durante mais de dois anos.
17 de Março de 2007, sábado.
Bem cedo partimos para um encontro com D. Damião Franklim, Arcebispo de Luanda, no Bispado que se situa junto ao Palácio do Presidente da República. O Bispado foi outrora uma casa dos jesuítas. Falou-nos da situação social e política de Angola, deu-nos uma perspectiva da Igreja em Angola (é o Presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé) e, particularmente, da Arquidiocese de Luanda. Agradeceu vivamente a nossa presença como Dehonianos em Angola, reconhecendo o bom trabalho que os nossos missionários estão a realizar neste país. Agradeci a sua solicitude pastoral para connosco e enderecei-lhe saudações em nome do Superior Geral, que foram retribuídas.
Nesta conversa, realçou o contexto de vida precária ou de sobrevivência em que se encontra a maioria da população. Luanda está neste momento com cerca de seis milhões de habitantes, mais de um terço da população de Angola. A cidade não está preparada para receber tanta gente. Pensava-se que, após o fim da guerra, as populações começariam a regressar às suas terras de origens, mas tem acontecido o movimento inverso. Um país que tem 25 das 35 matérias-primas consideradas essenciais pelas grandes empresas multinacionais, o que se torna apetecível para o forte investimento que se verifica actualmente. Se Luanda é já considerada a quarta cidade mais cara do mundo (a seguir a Nova Iorque, Tóquio e Geneva), Angola é considerado o país mais caro da África e o 5º país mais caro do mundo. Juntamente com a África do Sul, é o país com mais riqueza e possibilidade de desenvolvimento no continente africano. Luanda sofre ainda do chamado poder do tráfico (engarramentos monstruosos), que pode ser considerado o 5º poder em Angola, a seguir ao Presidente, ao Governo, à Assembleia Nacional e aos meios de comunicação social. De facto, muitíssima gente tem que sair de casa pelas quatro horas da manhã para chegar a tempo aos serviços e chega a casa já pelas dez da noite. Fica tempo para quê? E o desgaste psicológico que isso acarreta? E a produtividade neste contexto de forte cansaço de quem deve produzir? De realçar que um 6º poder é a extenuante burocracia que se verifica a todos os níveis.
A Igreja tem um papel importante nesta sociedade. Espera-se que ela contribua para a reconstrução do país, particularmente através da educação e da formação aos valores humanos. Ao partilhar connosco a precária situação de sobrevivência em que vive a maioria da população e as questões sociais que a atingem, salientou a interpelação que tal facto constitui para a Igreja, que procura responder na medida das suas possibilidades. A proliferação de seitas e movimentos religiosos foi igualmente aflorada. A Arquidiocese de Luanda conta com 200 padres (seculares e religiosos), mas grande parte deles exerce funções diocesanas ou no interior dos seus Institutos. Para esta população de seis milhões, há apenas 60 padres a trabalhar na pastoral directa. Falou ainda do Sínodo de Luanda, que terminou em Dezembro passado e que deixou importantes orientações da vida diocesana. Em particular, está em processo de conclusão a criação de duas novas dioceses em Luanda: Viana, na qual seremos inseridos, e Caxito. A Universidade Católica de Angola, cuja nova e bela sede foi inaugurada neste mês e da qual D. Damião é Reitor (efectivo), foi motivo de diálogo, pelo importante papel que desempenha na educação e na formação da sociedade em Angola. Há o desejo da criação da Faculdade de Teologia, o que neste momento não é viável.
Em relação à Congregação, reiterou o apreço pela nossa presença e expressou o convite para uma presença dehoniana ainda mais intensa em Luanda.
Tratou-se de um encontro muito fraterno e informal, após o qual D. Damião nos acompanhou numa breve visita ao palácio episcopal.
A tarde deste dia foi ocupada pelos três Superiores Provinciais em reunião, para fazer o ponto da situação sobre a Comunidade Territorial de Angola e tomar algumas orientações para o futuro. Depois do jantar, os cinco membros da Comunidade Territorial de Angola estiveram reunidos em conselho de família até perto da meia-noite, com a minha presença.
| Manuel Barbosa, scj – Superior Provincial |