superior provincial em angola – crónica/12

Km 9, Viana, 18 de Março de 2007

Estamos a chegar ao fim da nossa visita e das reuniões dos Superiores Provinciais com os membros da Comunidade Territorial de Angola, intercaladas com outros programas já previstos para estes dias.
A manhã deste 4º Domingo da Quaresma foi de celebrações. Os padres Domingos, Tullio, Jorge e eu ficámos na sede da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, aqui no Km 9. Os padres Madella, Vincenzo e Elio foram para outras comunidades. O P. Joaquim foi celebrar na casa das Irmãs da CONFHIC, que já andam a preparar a festa das primeiras profissões, que será a 1 de Maio.
A primeira Eucaristia na paróquia iniciou-se às 7 horas. A igreja estava cheia (cerca de mil pessoas). Fora da igreja, debaixo das árvores, mais umas centenas de fiéis, que participam na celebração, na medida do possível, olhando através das portas e janelas abertas e ouvindo através da eficiente amplificação sonora. Presidi e o P. Tullio falou no final da celebração. Um grande número de catequistas fez o seu compromisso perante a comunidade, algumas mulheres receberam diplomas de um curso de culinária organizado pela PROMAICA (movimento de Promoção da Mulher Angola da Igreja Católica), três centenas de eleitos fizeram o segundo escrutínio na caminhada de preparação para o baptismo (preparam-se há quatro anos para receber na Páscoa o primeiro sacramento da iniciação cristã). Foi uma celebração “breve” (só durou duas horas!), bem animada e participada por todos. No ofertório, entre oferendas em dinheiro e produtos da terra, uma mãe trouxe nos braços dois filhos gémeos para serem abençoados. No final, depois dos avisos sobre a vida da comunidade, apareceu uma criança que não encontrava a “mãe adoptiva da semana”. Trata-se de uma criança abandonada e que é adoptada por uma mãe em cada semana… E pensava eu na burocracia que, na nossa por vezes estúpida Europa, é necessária para processos de adopção de crianças que não têm outra hipótese de ajuda senão essa para bem crescerem… Ainda antes da bênção final, foram chamados os visitantes, isto é, os que estavam na celebração pela primeira vez, que foram acolhidos por um grupo encarregue de tal.
Depois da missa, tivemos uma breve reunião com os catequistas das comunidades e os responsáveis de movimentos e de grande número de coros. Há movimentos com mais de mil participantes, outros com várias centenas de membros. É preciso distinguir entre catequistas e catequistas: há os catequistas que dão catequese e os catequistas que são responsáveis pela vida da comunidade. Há também o grupo do protocolo, constituído por aqueles que estão encarregados em cada celebração de velar pela ordem da assembleia. É um serviço sério, que mete cartão e tudo. Os membros do protocolo chegam ao ponto de não deixarem entrar quem não está decentemente vestido. Destaco ainda que, entre os diversos grupos e movimentos, há a Juventude Dehoniana e, entre as centenas de escuteiros, há um grupo que se chama Patrulha Padre Dehon!
De notar que, entre as duas celebrações da manhã, houve uma liturgia da palavra e catequese para as crianças na igreja (umas centenas). Ao mesmo tempo, fora da igreja, sentados em bancos de cimento debaixo de cada árvore, muitos grupos têm as suas actividades de reflexão, de catequese, de leitura da Bíblia, etc. Uma comunidade viva, sempre em movimento…
Pelas 9.30 horas, já estávamos a iniciar mais uma breve celebração eucarística (duas horas!), com a igreja cheia. Foi animada pela Juventude Dehoniana, que está a celebrar um ano de existência e a fazer uma caminhada interessante. Presidi novamente à celebração, estando também os padres Tullio e Domingos. Uma celebração muito vivida. Na homilia, fiz uma reflexão sobre as leituras, deixando de seguida a palavra ao P. Tullio, que falou sobre o Padre Dehon e aquilo que ele esperaria dos jovens se aqui estivesse hoje. Terminei a partilha, cantando dois cânticos à guitarra, com a leitura do Decálogo da Juventude Dehoniana pelo meio. O P. Tullio tinha dito que o P. Dehon desejaria que tivéssemos um coração semelhante ao de Jesus, eu cantei “eu quero ter um coração bonito, igual ao de Jesus, igual ao de Maria, igual ao de José” e “abre o teu coração, sê profeta do amor…”. No final da celebração, a Juventude Dehoniana leu um discurso de boas-vindas, onde fez uma bela apresentação daquilo que é e faz em Angola.
Após a celebração, tivemos um encontro informal, debaixo de uma das árvores, com o grupo da Juventude Dehoniana. Cantámos, dialogámos e pensámos em projectos futuros. São jovens com garra, que apanharam bem a dimensão social do Padre Dehon e querem fazer algo nesse sentido. Aqui, a educação é a principal resposta aos problemas sociais e os jovens querem participar activamente nisso. Já adquiriram um terreno numa zona muito carenciada e querem construir uma pequena escola para as crianças (uma escola a sério). Amanhã vou ver o terreno. Prometi que poderia ajudá-los neste projecto social dehoniano. Os próprios jovens é que vão fazer a construção, precisam apenas de apoio para adquirir os materiais (tijolos, cimento, chapas de zinco para o telhado). Além disso, livros e material escolar são muito bem-vindos. Crianças não faltam, professores arranjam-se. Quem sabe se a Juventude Dehoniana em Portugal não poderia entrar neste projecto social de educação?! Seria um compromisso concreto do grande Encontro que vamos realizar em Abril, através da partilha de meios e, mais tarde, de voluntários para colaborar nestes projectos sociais!
Regressámos a casa todos cansados e super-transpirados, devido ao calor sufocante que fomos apanhando, mas felizes por esta manhã tão intensa, como resumia o P. Tullio. Depois, toca a preparar o almoço, simples mas nutritivo. Após breve descanso, passámos toda a tarde em reunião, para delinear as conclusões finais desta visita. Uma tarde também muito intensa, pois exigiu esforço para nos concentrarmos nos pontos principais, a fim de serem tomadas algumas decisões ou preparadas sugestões que serão apresentadas nas várias Províncias e ao Superior Geral.
No final da reunião, toca a preparar o jantar, sob a liderança do P. Vincenzo, que nos confeccionou uma saborosa “pasta” italiana. Um pouco de convívio, a pensar nas despedidas: o P. Elio Greselin parte amanhã para Moçambique (via África do Sul); o P. Joaquim Freitas regressa na terça-feira ao Luau (via Luena); o P. Tullio Benini volta na terça-feira para a Itália (via Portugal), acompanhado pela minha pessoa e pelo P. Jorge Alves, que vai tentar ir connosco para um muito merecido tempo de férias; os padres Domingos Pestana, Maggiorino Madella e Vincenzo Rizzardi ficam aqui, mas todos à espera para partirem ao longo des
te ano para um tempo de férias, pois há mais de dois anos que isso não lhes acontece. Ficam também os dois primeiros aspirantes dehonianos em Angola, o Henrique e o Bartolomeu, que vivem nesta casa e frequentam o Curso de Filosofia e Pedagogia. Dentro de pouco tempo, serão os dois primeiros postulantes da Comunidade Territorial dos Sacerdotes do Coração de Jesus em Angola!

| Manuel Barbosa, scj – Superior Provincial |