Ler a história como “História de Salvação”

Nas Notes Quotidiennes, Leão Dehon não se envolve com a história como um observador neutro, mas como uma “testemunha espiritual” cujo princípio interpretativo fundamental é a teologia da Providência. A Grande Guerra não é analisada como um acidente geopolítico ou o produto de falhas diplomáticas sistémicas, mas como um “castigo para a Europa” e uma “dívida para com a justiça divina” – especificamente, a justiça devida pelas cidades e nações que tinham “exaltado Voltaire e Renan” e excluído Deus da vida pública. Ele constrói a guerra não apenas como um castigo divino, mas, paradoxalmente, como um espaço de presença divina – uma “ideia de inferno” que é também um “Calvário da vida real”, no qual o sangue dos caídos “floresceria numa rica colheita” de renovação espiritual.

A progressão das entradas do tempo de guerra revela o arco desta hermenêutica providencialista com particular clareza:

“Este ano inicia-se sob condições muito dramáticas” (Janeiro de 1915)

“Há seis meses que a cidade está ocupada. Não há correspondência nem notícias do exterior. Os alimentos tornam-se escassos, falta carne e o pão cinzento é racionado. Paciência! Que as nossas privações apressem o dia da misericórdia” (Março de 1915)

“Já são treze meses de ocupação. A guerra reacende-se, mais terrível e implacável. A expiação ainda não é suficiente” (Outubro de 1915).

 

A 12 de março de 1917, a evacuação da cidade tornou-se obrigatória. “É o exílio”, escreveu Dehon, “após vários dias de penosa preparação”. Carregando o seu malote, como todos os outros, partiu para o ponto de concentração em Enghien, na Bélgica, chegando exausto e com sofrimentos. Foi a partir de Enghien que pôde posteriormente deslocar-se para Bruxelas e retomar gradualmente o contacto com os seus religiosos.

Esta hermenêutica providencialista estende-se à geografia da vida pessoal de L. Dehon. A sua mudança para Enghien é narrada como um “exílio”; a sua partida de Bruxelas torna-se um “êxodo”; as ruínas de São Quintino são interpretadas como uma “lição” inscrita por Deus na paisagem da história. Desta forma, a própria viagem é elevada a história sagrada, e o leitor é chamado a ver o “dedo de Deus” mesmo na destruição daquilo a que o autor chama o “berço” da Congregação. A estratégia é altamente eficaz: ela leva o leitor de um estado de sofrimento passivo diante de forças históricas além de seu controlo para um estado de actuação interpretativa activa – a actuação da testemunha espiritual que lê a história como um roteiro salvífico.

 

Extraído do contributo da

Comissão Teológica Dehoniana Europeia

ao VII Seminário Teológico em Taubaté (Brasil)